SÉRIE: O que a Bíblia diz sobre a Doutrina da Soberania e a Providência Divina - Capitulo 08

Capitulo 08 – Quem Deus Salva?

Tratado Sobre a Predestinação e a Eleição

Texto Base: Romanos 9.6-18


Introdução: Esta pergunta/titulo deste artigo apologético, resume de certo modo uma série de questionamentos muito comuns de todo aquele que deseja estudar as Escrituras com temor e tremor. Perguntas como: Por quem Cristo morreu? Por todos os homens? Se foi por todos sem exceção, por que todos não são salvos? Sua morte não foi eficaz? Cristo derramou Seu sangue em vão? Se Cristo morreu só pelos eleitos, isto foi justo? Os não eleitos podem ser responsabilizados por não serem eleitos? Se não haverá salvação para os não eleitos, por que pra que pregar o Evangelho? Se é certo que os eleitos serão salvos, é necessário pregar o Evangelho?

Para responder estas questões; recorreremos a Doutrina Basilar da Fé Cristã sobre a Ordo Salutis, ou Ordem quanto ao Decreto Da Eleição e Predestinação. E sobre isto, Calvino comenta:


Porque, se é notório que pela vontade de Deus sucede que a salvação é oferecida gratuitamente a uns, enquanto que os outros são impedidos de seu acesso, aqui prontamente emergem grandes e árduas questões, as quais não podem ser explicadas de outra forma, se as mentes piedosas têm por definido o que se impõe manter a respeito de eleição e predestinação1


Dito isto, voltemos nossos olhos ao texto áureo de Romanos 9, chamado carinhosamente por muitos de a kriptonita dos semi pelagianos, pelagianos, arminianos e todos quantos negam esta Verdade definida, e ensinada exaustivamente nas Escrituras, do Gênesis ao Apocalipse.


I – Por Quem Cristo Morreu?: Quando olhamos para as Escrituras em relação à salvação dos pecadores, a Escritura revela e defini a Doutrina da Expiação Limitada, também chamada na Teologia Reformada de Redenção Particular ou Limitada. A definição redenção particular, é defendida por autores como Jonh Piper, em seu conhecido livro Cinco Pontos2. É importante ressaltar que, quando falamos de expiação limitada ou particular nas Escrituras, não nos referimos ao poder ou valor, ou mesmo extensão do sacrifício vicário do Cristo; mas refere-se ao número de pessoas pelas quais Ele deu Sua vida. Dentro da Doutrina do Eternos Decretos de Deus, a Confissão de Fé de Westminster nos ensina que:


Pelo decreto de Deus e para a manifestação da sua glória, alguns homens e alguns anjos são PREDESTINADOS para a vida eterna e outros PREORDENADOS para a morte eterna. Esses homens e esses anjos, assim PREDESTINADOS e PREORDENADOS, são particular e imutavelmente designados; o seu número é tão certo e definido, que não pode ser nem aumentado nem diminuído.”3


Isto posto, a expiação particular(termo que prefiro utilizar), se distingui de outros dois ensinos muito difundidos dentro do cristianismo, e frequentemente debatidos nas redes sociais em páginas dedicadas a discutir teologia; seja para estudo honesto; seja para tentar macular o Calvinismo enquanto Teologia Bíblica – o universalismo e a expiação universal ou redenção geral(defendida especialmente pelos arminianos sejam clássicos sejam wesleyanos).

Contudo, estas três Doutrinas separam-se quando analisamos dois pontos fundamentais quanto à expiação: 1. A obra de Cristo na cruz por meio da qual Ele obteve a salvação e 2. A aplicação da obra da salvação a indivíduos pelo Espirito Santo.


1.O universalismo afirma que Cristo obteve a salvação para todas as pessoas do mundo sem qualquer exceção, de modo que todos então serão salvos.


2. A redenção geral/expiação universal ensina que, embora Cristo obteve a salvação para todo o mundo, o Espirito Santo aplica a salvação somente àqueles que aceitam Cristo pela fé, de modo que estes são salvos. Esta linha soteriológica, via de regra, é defendida pelos arminianos e pelagianos em geral.


3. A expiação particular que nós calvinistas(clássicos e tulipeiros) cremos e defendemos; ensina e afirma que Cristo ao morrer, garantiu a salvação APENAS aos eleitos. Do mesmo modo, o Espirito Santo aplica a obra vicária do Cristo APENAS aos eleitos.


O que fica claro quanto a redenção geral em sua definição, é que a morte expiatória de Cristo POSSIBILITA a salvação do mundo inteiro(tanto dos eleitos como dos réprobos), porém a realidade é que ela NÃO GARANTIU a salvação de ninguém! Isto é facilmente refutado por inúmeras passagens das Escrituras: Jo 6.37-40;10.27-29;11.51-52; Rom 8.28-39; Ef 1.3-14; 1Pe 1.20; Jo 10.15-18; Rom 5.8-10; Gl 2.2; 3.13-14; 4.4-5; 1Jo 4.9-10; Ap 1.4-6; 5.9-10.

Como já dissemos, a expiação particular, defende conforme todos os textos mencionados acima, que o Espirito Santo APLICARÁ de modo eficaz e definitivo a obra da salvação a todos aqueles pelos quais Cristo morreu; de maneira que todas essas pessoas serão de fato salvas.

Atrelado à expiação particular, está a Doutrina da Vocação ou Chamado Eficaz. De fato, é relevante afirmar a oferta gratuita de Jesus no anuncio do Evangelho. Deus de fato chama os homens ao arrependimento. Contudo, a Bíblia também ensina claramente que APENAS os eleitos ouvirão ao chamado novamente reafirmamos, EFICAZ do Espirito Santo. Ao passo que os réprobos o rejeitarão, e mais; o fazem por escolha própria, sendo responsáveis por sua justa condenação: Mt 22.1-7; Jo 3.18; 36.


II – Predestinação e Eleição: Uma vez que respondemos por quem Cristo efetivamente morreu, dentro da Apologética Calvinista Clássica, defenderemos agora a Doutrina Basilar Bíblica da Predestinação e da Eleição dos crentes.

Fato – As Escrituras são cristalinas quanto a Soberania Divina sobre toda a Criação, incluindo o homem. Paulo, em nosso texto base do Artigo explicando os eventos envolvendo os Patriarcas, afirma que “ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal(PARA QUE o propósito de Deu, quanto à eleição, não por obras, mas por aquele que chama), já fora dito a ela: O mais velho será servo do mais moço. Como está escrito: Amei Jacó, porém me aborreci de Esaú – Rom 9.11-13.

O texto de Romanos 9 é de fato um dos mais contundentes quanto a Doutrina da Soberania Divina e dentro de nosso assunto aqui, da Predestinação. Há muito outros textos que ainda citaremos brevemente, mas, nos deteremos ainda em Romanos 9, neste trecho acima postado.

O verso 13 que destacamos no texto diz que Deus amou Jacó, ao passo que aborreceu Esaú. O termo traduzido por aborrecer em algumas versões vem do grego misew que significa – odiar, considerar com má vontade, detestar, abominar4; termo duríssimo, encontrado em outras passagens: Ap 2.6; Hb 1.9; Jo 12.25; apontando para a rejeição Divina em distinção do amor pactual e eletivo de Deus para com os eleitos. O fato defendido por Paulo no texto é o de que o mesmo Deus que escolhe alguns para a salvação e rejeita aos demais(segundo o verbo grego odeia, não ama a ponto de salvá-los); não se torna como dizem nossos adversários, injusto. Isto porque a conclusão que o mesmo Paulo faz à sua argumentação é a de que Deus derrama Sua misericórdia a quem ELE deseja, do mesmo modo que endurece a quem lhe apraz.

A obra da salvação é completa. Como podemos ver neste gráfico:


Segundo vemos e de acordo com várias passagens das Escrituras; ela se inicia na eleição antes da fundação do mundo, veja Ef 1.4-5, passa pela justificação mediante morte de Cristo e termina com a glorificação e ressurreição Naquele Dia, veja Jo 6.39-40; Hb 7.25.


III – Oferta Sincera do Evangelho: Quando supostamente confrontada por nossos adversários arminianos, pelagianos e universalistas; uma das teses contra a Doutrina Bíblica da Predestinação é a de que uma vez que Deus tem os Seus eleitos efetivamente; torna se inútil a pregação do Evangelho, já que Deus definitivamente não salvará a todos os homens, como estas correntes defendem. O que responder quanto a isto? Simples. Vamos ao texto de Romanos.

No capitulo 9, Paulo mostra como se relaciona a soberania divina com a predestinação, e como elas estão ligadas na história do povo de Israel. No capitulo 10, Paulo expressa um sentimento pessoal em relação aos seus compatriotas, ainda que inspirado, sobre sua condição de pregador do Evangelho. Mesmo sendo perseguido por seus compatriotas muitas vezes, Paulo orava suplicando a Deus para que os judeus fossem salvos. Paulo embora plenamente convicto de que Deus efetivamente salva somente os Seus eleitos, demonstra misericórdia e compaixão quando ora pela salvação de seus patrícios. Aqui está nossa motivação missionária, porque não depende de sabermos quem são os eleitos. A ordem é clara: ide e pregai o Evangelho a toda a criatura. Nossa tarefa é pregar a mensagem. Os resultados ficam com Deus.

Uma vez que as Escrituras são cristalinas quanto a Eleição, Predestinação e salvação eficaz exclusivamente dos eleitos, como interpretar os textos que afirmam que Deus deseja que os homens se arrependam e se convertam? Petrus Van Mastricht1 responde:


“… é levantada a objeção de que a predestinação individual retrata Deus sob uma luz indigna, atribuindo a Ele: (a) Iniquidade, pois parece que Ele pune os indivíduos por ações que eles puderam evitar devido ao Seu decreto. Em resposta: Deus pune não porque alguém age de acordo com Seu decreto, mas porque transgride voluntariamente a lei que lhe foi dada, sem saber de Seu decreto e motivado por seus próprios desejos. (b) Pretensão enganosa, pois parece que Deus chama todos para a salvação enquanto por um decreto imutável, Ele sabe que a maioria não será salva. Em resposta: o chamado de Deus não é para garantir sua salvação, mas sim para torná-los inescusáveis, permitindo que pereçam devido à sua própria teimosia. (c) Ignorância e imprudência, pois Deus chama e tenta sinceramente levar a salvação àqueles que Ele sabe de antemão por meio da predestinação, que nunca a alcançarão. Em contrapartida, Seu chamado e Seus esforços não tem como objetivo a salvação real dessas pessoas, mas que elas enfrentem as consequências de sua obstinação voluntaria. (d) Depravação, pois é sugerido que Deus não apenas decretou que seriam condenados, mas também quem pecaria. Em contraposição, Deus decretou permitir o pecado e, com base nEle, condenar com justiça, para que Sua justiça fosse manifestada, sem qualquer tipo de depravação.”


Conclusão: A morte de Cristo na cruz é substitutiva, o que significa que ela de fato expia e justifica o pecador. Não é uma mera “possibilidade” salvação; mas um Ato Consumado. Desse modo, apenas os eleitos são efetivamente alcançados e salvos. Isso contudo, não contraria a Verdade de que temos de pregar o Evangelho, bem como orar para que todos se arrependam; essa é a nossa responsabilidade, mesmo que não saibamos quem são os eleitos do Senhor. Que Ele nos encha do Seu Espirito para obedecermos ao Ide e preguemos com poder e fervor a toda a criatura.



Juliana C. de Souza


1Artigo, Respostas às Objeções contra a Predestinação Divina, Calvinismo Classico.com 

1Institutas Vol. Único, Livro III, Capitulo XXI; São Paulo, Vida Cristã, 2022

2São Paulo, Fiel, 2014

3Capitulo III, Dos Decretos Eternos de Deus, parágrafos III e IV

4Willian D. Mounce, Léxico Analítico, São Paulo, Vida Nova, 2013

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

SÉRIE: O que a Bíblia ensina sobre a Doutrina da Soberania e a Providência Divina - Capitulo 10

História da Igreja: A Tragédia em Guanabara