SÉRIE: O que a Bíblia ensina sobre a Doutrina da Soberania e a Providência Divina - Capitulo 10

Capitulo 10 – Mas a Bíblia diz Que…

Uma Resposta aos Arminianos, Pelagianos e Universalistas

Texto Base: 2Timóteo 3.16-17


Introdução: Chegamos num ponto de nossa Série que gosto de chamar de divisor de águas; pois aqui se separam os espiritualmente experimentados na Fé, dos que gosto de chamar de “teólogos palpiteiros da internet”. Isto porque os Temas trabalhados até aqui foram, digamos, o passo inicial para entendermos um pouco sobre a Doutrina da Soberania, bem como da Providência Divina. Contudo, mesmo tendo avançado até aqui, é possível que ainda pairem dúvidas ao leitor, especialmente sobre determinadas passagens das Escrituras que, aparentemente contradizem tudo o que a própria Escritura afirma, quanto à Soberania Divina, Sua Providência e a salvação dos pecadores. Diante disto, a pergunta é: pode haver contradição nas Escrituras?

Para responder esta pergunta, estudaremos à luz da Hermenêutica Bíblica, algumas passagens polêmicas, que numa primeira leitura, parecem sustentar uma contradição para o deleite de Arminianos, Pelagianos, Liberais e Universalistas, quando levantam falácias sobre o Calvinismo. Mas no final, provaremos tanto suas falácias, quanto o mais importante – a Bíblia JAMAIS se contradiz.


I – A Autoridade das Escrituras: Como já o fizemos brevemente na Introdução, quanto à supostas contradições nas Escrituras; afirmamos que – a Bíblia não se contradiz. Isto porque a Bíblia enquanto Palavra de Deus, reflete o caráter do próprio Deus. Portanto, a Bíblia não se contradiz, porque o próprio Deus não se contradiz! - 2Tm 2.13; Tt 1.2; 1Jo 5.9; 1Ts 2.13; Jo 16.13-14; Lc 1.3-4; Rm 15.4.

Dito isto, a primeira falácia a se destruir é a premissa ou pressuposto de que a Bíblia não pode conter “versos papistas”, “versos calvinistas” ou “versos arminianos” e etc. A isto refutamos afirmando que – o ensino das Escrituras é um só, verdadeiro, harmonioso e portanto, digno de toda a aceitação – 1Tm 1.15.

A segunda falácia a cair por terra, diz respeito à interpretação propriamente. Pois, se o problema não é e nem está nas Escrituras; ele estará SEMPRE naquele que lê e interpreta o texto sagrado. É importante ressaltar que essa interpretação do leitor nunca é isenta, pois a pessoa lê de acordo com seus pressupostos. Ou seja - com uma ideia pré concebida segundo aquilo em que crê antes mesmo de interpretá-la de acordo com sua cosmovisão.

Uma vez explicado tudo isto, chega-se a conclusão óbvia do porque com um mesmo texto, temos conclusões diferentes. Nenhum de nós interpreta a Bíblia de modo “livre”. Contudo, quando falamos de Hermenêutica Bíblica, existem regras a serem respeitadas ao interpretarmos as Escrituras. Ainda que se analisem passagens diversas dentro de um determinado tema/assunto; não se interpreta um salmo por exemplo, do mesmo modo que um carta, pois são gêneros literários diferentes. Assim pois, cada gênero literário obedece regras específicas de hermenêutica, para se entender o que está escrito.


II – Interpretando as Escrituras: A hermenêutica é a ciência ou disciplina que nos ajuda dando regras gerais de interpretação. Logo, quando nos referimos à hermenêutica bíblica, nos referimos à disciplina que nos ajuda por meio de regras específicas à interpretar o texto sagrado. Podemos dividir os textos bíblicos por temas específicos para compreender melhor determinada passagem ou assunto a ser estudado. A chamada regra de ouro da hermenêutica é que passagens mais difíceis ou obscuras, dever ser interpretadas à luz de passagens mais claras ou simples. O melhor exemplo que temos na própria Bíblia está na sua composição – O Novo Testamento é uma Interpretação fiel do Antigo. Mais especificamente as Cartas. Isto colocado, é importante ressaltar que, na hermenêutica bíblica, respeita-se a intenção do autor, em primeiro lugar no contexto cultural de sua época. Ao entendermos isto, podemos a partir desta premissa básica de interpretação de texto, aplicar a sua mensagem ao nosso contexto atual. Passemos então a analisar algumas passagens que segundo os opositores, se contradizem quanto a alguns temas.


1. Textos Sobre a Escolha do Homem: Via de regra, arminianos e pelagianos tendem a ver passagens que falam sobre a escolha do homem como referência ao seu livre arbítrio. E como já tratamos num capitulo especifico sobre este tema1; ao refutarmos o erro pelagiano/arminiano, nos referimos à ideia do livre arbítrio libertário. Pois eles defendem com base nestas passagens que, toda a vez que os homens tomam decisões, eles o fazem sem qualquer interferência, de modo totalmente espontâneo, sem uma causa anterior. A isto, refutamos.

O calvinismo não nega que o homem efetivamente faz escolhas, e que o faz de modo livre. O que a Bíblia contudo afirma, é que esta liberdade de que o homem desfruta, é limitada pelo próprio Criador, sendo por Ele delimitada, todavia real. De maneira que, sempre que a Bíblia trata de textos que falam de uma necessidade de escolha do homem; não está dizendo que os homens que escolheram servir ao Senhor o fizeram sem a interferência ou sem o auxílio do próprio Deus.

Os eleitos são regenerados e por causa desta Operação pura e exclusiva do Espirito Santo, tornam- se por Ele aptos a responder ao chamado do Espirito em fé e obediência; sendo de maneira que eles vêm livremente, sendo para isto dispostos pela sua graça2.

Isto posto, analisemos duas das inúmeras passagens das Escrituras sobre a escolha humana, a luz do que a própria Escritura ensina sobre a suposta tensão.


Apocalipse 3.20: Já perdi a conta das inúmeras vezes em que tive de explicar este texto em debates com opositores, porque o citam isoladamente para defender premissas que definitivamente o texto NÃO ensina. Vejamos o Texto:


Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele e ele comigo


Já cansei de ouvir pregadores usando este verso em campanhas e cultos evangelísticos, defendendo a ideia de que “Jesus está batendo na porta do coração dos homens, cabendo ao homem ‘decidir se abrirá esta porta ou não” Os mais “emocionados” por assim dizer, vão mais longe ainda na chamada eisegese; chegando a afirmar que “Jesus está implorando para ser recebido”! Creia: eu já debati com muitos, que defendem essa ideia em minhas Redes Sociais.

Agora, a questão é: será que este verso está realmente afirmando isto? Não existe a menor evidencia, seja explicita ou implícita no texto, muito menos em seu contexto, que nos permita afirmamos isto. E o afirmamos com base na seguinte argumentação com base na passagem completa:


1. o verso em questão está inserido num contexto que trata de uma mensagem a Igreja – O livro do Apocalipse foi escrito pelo apóstolo João e endereçado às sete igrejas localizadas na Ásia Menor, assim, o texto em questão se refere a CRENTES, e não a incrédulos; Ap 3.14.


2. o verso é uma exortação a que a Igreja em Laodiceia se arrependa – Desde o verso 14 do capitulo 3, como citamos no ponto anterior, Jesus está tratando com Sua Igreja, que ao que o texto indica, estava digamos, indiferente quanto aos princípios do Evangelho naqueles dias. A comunidade cristã em Laodiceia recebe uma dura palavra de disciplina do Seu Senhor. De modo que aqueles crentes são confrontados quanto ao seu pecado de mornidão espiritual, e recebem o chamado ao arrependimento. É DISTO que este verso no contexto da passagem trata.


Assim, quando lemos este verso 20, à luz de TODO O SEU CONTEXTO, iniciado no verso 14; podemos aplicar que aqueles que se arrependessem dos seus pecados na igreja em Laodiceia, voltariam a desfrutar da comunhão com Cristo, e se não acontecesse, Ele viria com disciplina. De maneira que o texto, quando lido corretamente em sua perícope, NADA fala sobre salvação de ímpios; mas é uma exortação a crentes abastados financeiramente, mas omissos e preguiçosos na obra do Senhor – 3.14-19.


Apocalipse 22.17: Outro texto usado isoladamente para defender uma suposta escolha do homem sem qualquer influência ou inclinação da vontade. Mas, assim como a passagem no mesmo livro, analisada anteriormente, analisaremos esta passagem do capitulo 22 para entendermos o que exatamente este verso quer dizer. Vamos ao texto:


O Espirito e a noiva dizem: Vem! E quem ouve diga: Vem! Quem tem sede, venha; e quem quiser, receba de graça a água da vida.


Assim como o texto anterior, se nos determos apenas neste verso, numa leitura rasa, este verso, poderia imaginar que o texto dá total condição para pensar que “quem quiser” refere-se a qualquer pessoa de forma sem exceção. E mais; numa leitura superficial desse verso, faz-se pensar que de fato, o homem tem autonomia para “querer” a água da vida. Pois em uma leitura literal, o texto diz simplesmente “aquele que deseja”, em referência a um apessoa que tem sede, e se desejar, ela pode receber de graça a água da vida.

Bem, mas será que o texto de fato diz isto? Pois, quem pode desejar estas coisas? Uma vez que a Bíblia afirma expressamente que o homem natural é morto em pecado; segundo o contexto deste verso, este convite é dado à aqueles que foram tirados deste estado de morte espiritual, Ef 2.1-10.

Assim que, pelo contexto da passagem – 22.6-16; observamos que em momento algum o texto é um convite a salvação autônoma do pecador. Antes, é a confirmação de que aos filhos de Deus é dado beber de graça da água da vida, pois estes foram lavados no sangue do Cordeiro, sendo bem aventurados por tal graça e lhes foi dado permanecer perseverantes em santidade. Por serem por Deus regenerados, podem de fato desejar o Senhor e desfrutar de Sua presença.


2. Textos Sobre “Todos”: Sem a menor dúvida, quando se fala em autonomia por parte dos pelagianos e arminianos, tira-se a cartinha de que a obra da salvação alcança a todos. Inúmeras são as passagens que os opositores usam para afirmar uma suposta salvação universal sem exceção. E quando apelam para essa salvação universal, sacam o texto áureo de toda a Bíblia – João 3.16.


Porque Deus amou o mundo de tal maneira, que Deus seu Filho Unigênito; para que todo aquele que nele crê, não perece, mas tenha a vida eterna.


Segundo os arminianos, Deus amou a todas as pessoas sem exceção, e indiscriminadamente de uma maneira surpreendente, ao ponto de dar o Seu Filho, para que todo aquele que quiser crer nele não pereça, mas tenha a vida eterna. Para o arminiano, uma vez que Deus indiscriminadamente ama a todos os homens, Ele por meio da morte do Cristo, POSSIBILITA a salvação graciosamente a todos. Sim! Isso mesmo que você leu, de acordo com o Arminianismo, a morte Vicária do Cristo na cruz, POSSIBILITA a salvação para todos os homens sem exceção, de acordo com o arminianismo.

Mas será que é isto que este tão conhecido texto, bem como outros que tratam do mesmo ponto, de fato ensina? Mais uma vez, vejamos o que o contexto desta passagem nos ensina de fato.

Desde o verso 1 do capitulo 3 do evangelho escrito por João, o texto vai nos mostrando como o Espirito Santo, regenera a mente e o coração do pecador, o habilitando dessa forma a crer em Deus o Pai. E as palavras de Jesus dentro do seu contexto, já apontam para o sentido deste verso, mais declamado pelos cristãos em toda a Historia. “De tal maneira” aponta para o levantamento da serpente de bronze no deserto – Jo 3.14-15; veja Nm 21.4-9. O paralelo usado por Jesus neste texto é bem sugestivo – da mesma forma que uma serpente de bronze foi erguida no deserto para salvar o povo de Israel do seu pecado; o Filho de Deus deveria ser levantado para a remissão dos pecados DO SEU povo. E como provamos esta Verdade? Simples – basta ler o verso com atenção, pois ele mesmo responde a finalidade da morte do Filho: para que todo o que nele crê não pereça. O próprio verso já aponta quem efetivamente será salvo pelo Filho. Bem, mas como ficam aqueles que não creem? Simples, mais uma vez; basta CONTINUAR a ler o texto! Vejamos:


Pois Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por meio dele. Quem crê não é condenado; mas quem não crê, já está condenado, pois não crê no nome do Filho unigênito de Deus… Quem crê no Filho tem a vida eterna; quem, porém, mantém-se em desobediência ao Filho, não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus – Jo 3.17-18;36


Em mais. Além do próprio texto em sua continuação, vemos em outras passagens também no mesmo evangelho segundo João, Jesus respondendo a esta mesma pergunta que nossos adversários constantemente fazem para desacreditar a Sã Doutrina:


Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou, não o trouxer… - 6.44


Mas vós não credes, porque não sois das minhas ovelhas. As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão – 10.26-28.


Assim, o que concluímos segundo o próprio texto, é bem simples: só crerá no Filho aquele que o Pai der e conduzir, de forma soberana, a Cristo.


Conclusão: Negar a Autoridade das Escrituras é o mesmo que negar o caráter do próprio Deus. Por essa razão, as Escrituras são reconhecidas por todo o cristão verdadeiramente, como Palavra Autorizada e Autoritativa de Deus para nós, bem como o que Ele deseja que conheçamos e sigamos. Palavra esta, inspirada pelo Espirito Santo. Que não se contradiz e nem revela verdades excludentes. O seu ensino é uno, harmônico e santo; e por isso, todo aquele que a interpreta, deve fazê-lo do modo correto – respeitando o seu contexto próximo e amplo, bem como a intenção do autor que a escreveu. Sendo toda a dificuldade e inconsistências são atribuídas a dificuldade do pecador de entender o Santo Livro.


Juliana C. de Souza



1O Capitulo 02 Sobre o Livre Arbítrio Segundo as Escrituras

2Confissão de Fé de Westminster, Capitulo 10: Da Vocação Eficaz, Parágrafo I

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