SÉRIE: O que a Bíblia Ensina sobre a Doutrina da Soberania e a Providência Divina - Capitulo 12

Capitulo 12: Deus e o Mal: Problema Resolvido?

Breve Tratado sobre o Mal no Decreto Permissivo Divino na Providência – Parte II

Texto Base: Isaías 45.1-7


Introdução: No capitulo anterior, iniciamos nossa discussão e nossa exposição sobre este tema tão complexo quando estudamos sobre a Soberania e a Providência Divina. Isto é importante, porque ao longo de séculos, muitas discussões surgiram sobre este tema, e de fato existe uma tensão e porquê não dizer problema entre o Deus totalmente bom e a existência da maldade no mundo; sendo usados por muitos de nossos acusadores, como uma objeção ao Criador. Bem como o sustento de falácias e torpezas contra a Santidade de Deus, como da Teologia Reformada.

E como falamos desde o inicio desta jornada – nosso objetivo não é encerrar o assunto, muito menos “resolver o problema” como um certo autor queridinho dos Ocasionalistas. Nosso objetivo é esclarecer as falácias de que nos acusam, e motivar o leitor a de fato estudar com seriedade tão sublime Doutrina basilar do Cristianismo. Para tanto, algumas perguntas servem para nossa introdução à exposição do Assunto.

1. a presença do mal no mundo é a prova de que Deus não existe?

2. a presença do mal no mundo é a evidencia de que Deus não é Todo Poderoso?

3. a presença do mal no mundo coloca em xeque tudo o que as Escrituras ensinam a respeito do poder e da bondade de Deus?


Analisaremos estas questões, no decorrer do capitulo


I – O Mal como um Problema: Para digamos, responder esta questão, duas distinções são necessárias aqui. A primeira, refere-se ao conceito de mal nas Escrituras. A segunda, diz respeito ao conceito de pecado nas Escrituras. Embora ambos os termos estejam interligados nas Escrituras quando trata da natureza caída dos homens; a depender da passagem bíblica onde ela é empregada, a resposta também pode variar. Isto colocado, vejamos a definição de ambos os termos.


Mal: este termo, tirado do Hebraico, provém de uma raiz que significa estragar, despedaçar ou tirar o valor1. Em níveis gerais abrange tanto o ato mau quanto suas consequências.


Pecadoé qualquer falta de conformidade com a Lei de Deus, ou a transgressão de qualquer lei por Ele dada como regra à criatura racional2. E como já explicamos anteriormente, trata-se de um defeito, uma anomalia, uma deformidade NA criatura.


Bem, uma vez definidos os termos, passemos a problemática entre Deus e o mal. De fato, o mal é um problema, pois ele fere a santidade de Deus. E embora Deus seja ex lei(não está sujeito à Lei); Ele não pode ir contra Sua própria santidade, pois a Lei é a expressão proporcional do Seu caráter.

Surge então a pergunta comum toda a vez que afirmamos mediante a Escritura, que Deus rege o mundo por meio dos Seus Decretos – então Deus decretou o pecado? A isto, Turritine explica:


Ainda que se diga que todas as coisas são necessárias com base no decreto, Deus não pode, por causa disso, ser tido como o autor do pecado. O decreto que é a causa da futurição do pecado, não obstante não é a causa física(pela infusão do mal)nem sua causa ética(pela aprovação dele). E assim, embora o pecado necessariamente siga o decreto, não se pode dizer que frui do decreto. O decreto não frui da coisa, nem é efetivo do mal, mas somente permissivo e diretivo.3


O que afirmamos portanto, é que existe um abismo entre Deus decretar o mal, com Deus efetivamente realizar o mal. Ou como defendem os ocasionalistas, “causar ativamente o mal”. Afirmamos o primeiro. Refutamos o segundo. Pois como já viemos demonstrando ao longo deste Estudo, a responsabilidade moral é tão somente da criatura livre; sendo todo o ato ou evento, predeterminado por Deus desde a eternidade.

O mal é um problema, porque Deus nunca aprova o pecado. Reafirmamos – Deus decretar o pecado, não significa que que Ele o aprove. Petrus Van Mastrischt argumenta que:


Além disso, é essencial entender que as obras de Deus se estendem a todas as coisas(Rom 11.36)-a toda entidade que possui essência e bondade, seja no reino da natureza ou da moralidade. A ação de todas as causas secundárias depende inegavelmente da ação da causa primária, que é absoluta e suprema. Essa dependência é verdadeira não só em relação à essência da obra em si, mas também em relação a todos os seus aspectos inerentes. Como está escrito: “Eu o Senhor faço todas estas coisas”(Lm 3.37-38). Por conseguinte, Deus não produz, e de fato não pode produzir, coisas moralmente más ou pecados, pois estes não são efeitos, mas sim DEFICIÊNCIA NOS efeitos. Deus também não pode transgredir a lei, pois a essência desse mal reside unicamente em tais transgressões(1Jo 3.4)4


Como dissemos, reafirmamos – Deus odeia o pecado, tanto que condena e condenará todos os que o praticarem e não se arrependerem. Da mesma forma que tolera os vasos de ira e os pecados que cometem até o dia do Juízo(Rm 2.4; 9.22-23).

Finalmente, o mal é um problema porque em resumo ele é a rebelião de criaturas que devem prestar toda a honra somente a Deus. Como Soberano, Deus é digno de toda a honra e glória. E a rebelião em última análise, é um desejo por parte da criatura de ser autônomo, independente do Seu Criador. Em outras palavras, é dizer para Deus que não aceita Seu governo e recusa-se a sujeitar-se a Ele; Sl 5.10.

Isto posto, como também já demonstramos, o mal não precisa necessariamente ser visto como um problema em relação a Deus. Pois como vimos, nas Escrituras, temos muitas passagens demonstrando como Deus, digamos, “se relaciona” com o mal – Am 3.6; Lm 3.38b; Is 45.7; Sl 105.25; Rm 9.18; Pv 21.1; 2Ts 2.11. Contudo, não somos arrogantes a ponto de afirmar que esta aparente tensão entre Deus e o Mal, é “um problema resolvido”; quando perduram N discussões no meio teológico a respeito deste tema complexo e amplamente discutido na Historia da Igreja.

Então, como afinal, Deus interage com o mal sem ser o Seu autor/criador? É o que apresentaremos a partir de agora.


II – Os Agentes do Mal: Como dissemos; reafirmamos com total convicção – Deus não pratica o mal, nem pode ser culpado por ele. Em primeiro lugar porque Ele é Santíssimo. E em segundo, porque os agentes morais livres Lhe pertencem, e cumprem o Seu propósito. Aqui penso, está a complexidade quando tratamos da Providência Divina nas ações das criaturas – pois esta ação da malícia da criatura não excluí o Decreto e nem a Direção seja nas ações, seja nas omissões desses agentes livres. Assim, permanece a questão – Como Deus dirige as ações das criaturas sem contudo ser o autor/criador do mal?


1. Seres angélicos como agentes: Um grupo de agentes que Deus usa para cumprir Seu propósito, são os demônios, e o próprio Satanás.

Quanto aos demônios, uma passagem bastante conhecida é a de 1Reis 22.5-28: Deus determinou que o rei Acabe fosse a batalha para ser derrotado. Para este fim ou propósito, foi necessário que um espirito maligno profetizasse por meio de 400 profetas que supostamente serviam ao Senhor, uma palavra mentirosa ao rei. Lemos claramente no texto que Deus ORDENA que este espirito cumpra a intenção de enganar e que ainda prevaleceria, 22.21-22.

Outra passagem bem clara sobre este ponto está em Jó. Em duas ocasiões lemos que Satanás questiona a integridade de Jó enquanto servo do Senhor. E o que lemos em ambas as passagens é:


Então Satanás respondeu ao Senhor: Será que Jó teme a Deus sem intenções?… Mas estende a mão agora e toca em tudo que ele tem, e ele blasfemará contra ti na tua face! Respondeu o Senhor a Satanás: tudo o que ele tem está sob teu poder, apenas não estendas a tua mão contra ele… Jó 1.9-12


E novamente:


Então respondeu Satanás ao Senhor: pele por pele! E tudo quanto um homem tem ele dará por sua vida. Estende a mão agora e toca-lhe nos ossos e na carne, e ele blasfemará contra ti na tua face! Então o Senhor disse a Satanás: Eis que ele está sob teu poder, somente lhe poupe a vida Jó 2.4-6


Nestas duas passagens, vemos Satanás sendo o instrumento nas mãos de Deus para provar Jó. Portanto, o propósito soberano do Senhor se cumprirá. E ele pode até mesmo usar suas criaturas para este fim. E as criaturas agem de modo livre, conforme a sua natureza, sendo totalmente responsáveis por suas ações.


2. Seres humanos como agentes: Semelhantemente ao caso dos seres angelicais; Deus também se utiliza dos homens para cumprir o Seu Decreto. Quanto aos atos pecaminosos dos homens; Turritini afirma:


O decreto da providência atrai isso necessariamente após si, porque assim como tudo o que sucede no tempo Deus decretou imutavelmente efetuar ou permitir, Ele deve pré conhecer tudo infalivelmente. A razão é que a presciência de Deus segue seu decreto e, como o decreto não pode ser mudado, não pode seu conhecimento ser equivocado: No céu está o nosso Deus e tudo faz como lhe agrada Sl 115.3; Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas Rm 11.36… Estas passagens podem referir-se somente às coisas que Deus mesmo faz, e não àquelas que devem ser feitas pelos homens. Pois todas as coisas estão igualmente sujeitas à providência divina; nem a liberdade das ações humanas as impede de permanecer sob Seu conhecimento e decreto...”5


Como vimos até aqui, Deus utilizou e utiliza um agente moral livre para cumprir os Seus propósito. E após a realização desse concursus, aqueles que cometeram os atos de malícia, foram justamente punidos por Deus. Judas Iscariotes é o melhor exemplo nas Escrituras. E isto só é possível, porque Deus é soberano, e o homem, moralmente responsável por suas ações.


III – Afinal Deus Criou o Mal?: Chegamos a pergunta de “1 milhão de dólares” em nosso Estudo. Com base em tudo o que vimos até aqui, faz- se necessário responder a esta questão – afinal de contas: Deus é o autor do mal? A isto refutamos terminantemente. Sabemos contudo, que esta é uma das questões mais complexas da Teologia. Existem discussões intermináveis sobre esse tema, livros foram escritos dedicados a esse tema dentro da Theontologia.

Como também já expusemos até aqui, Deus é Santíssimo e não pode sequer tolerar o pecado. Lembramos que, quando nos referimos a mal, nos referimos aos atos de malícia ou ao pecado da criatura propriamente dito.

Portanto, o ponto de tensão aqui é se o Deus que é Justo e Santíssimo e que não suporta e sequer aprova o pecado/mal, é o seu autor. Bom, como temos demonstrado exaustivamente; absolutamente NADA está fora do controle ou governo soberano de Deus. A isto, evidentemente, inclui-se o pecado dos seres morais por Ele criados. Agora, isto é suficiente para se afirmar como alguns de nossos adversários; que Deus é o agente ou causador do mal? A isto, também refutamos. Afirmamos portanto que:


1. que os atos pecaminosos estão sob o governo divino e ocorrem de acordo com a predeterminação e o propósito de Deus, mas somente pela permissão divina, de modo que ele NÃO LEVA EFICIENTEMENTE os homens a pecarem – Gn 45.5; 50.20; Ex 14.17; Is 66.4; Rm 9.22; 2Ts 2.11


2. que Deus muitas vezes reprime as obras pecaminosas do pecador – Gn 3.6;Jó 1.12; 2.6; Sl 7610; Is 10.15; At 7.51


3. que Deus no interesse do Seu propósito, dirige o mal para o bem – Gn 50.20; Sl 76.10; At 3.136.


De maneira que, quando olhamos para as Escrituras, percebemos que mesmo que Deus tenha decretado a existência do mal; Ele NÃO É O AGENTE do mal, Ele não pode causar ativamente ou efetivamente nem o mal nem o pecado; mas Ele tem total domínio sobre o curso dos eventos, usando a ambos para os Seus propósitos Justos e Bons.

É desta maneira que podemos enxergar nosso texto objeto do capitulo. Isaías 45.7, numa análise mais profunda da expressão mal(rah) tem vastos significados; sendo que neste texto em especifico, o termo mais aplicado para mal, é desastre – Gn 44.34. Assim, quando analisamos este texto dentro de seu contexto; uma possível tradução do verso ficaria assim: … faço a paz e crio a calamidade, pois segundo o contexto, o profeta está destacando as obras do Senhor como soberano tanto sob a ótica das bençãos como daquilo que enxergamos como tragédias. Isto não é o mal moral, ou malicia ou pecado, segundo o texto.

Isto colocado, afirmamos que os atos de malicia/pecaminosos pertencem somente aos agentes morais livres criados por Deus. Estes sim, desejam o mal e o praticam livre e espontaneamente, e por seus próprios atos caem.

Afirmamos também que todo o curso do evento foi decretado antes da fundação do mundo e mediante a providência de Deus concorre ao lado da responsabilidade moral de cada criatura.


Juliana Correia



1Dicionário Bíblico Vida Nova

2Catecismo Maior de Westminster, Pergunta 24

3Compêndio de Apologética Reformada, Vol I p 417.

4MASTRISCHT, Petrus Van, Deus, Decretos, Eleição e Predestinação, pág 16. p 7

5Compêndio de Apologética Reformada, pag 285

6BERCKHOF, Louis, Teologia Sistemática, São Paulo, Cultura Cristã 2009

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