SÉRIE: O que a Bíblia Ensina sobre a Doutrina da Soberania e a Providência Divina - Capitulo 11

Capitulo 11 – Deus Permite?

Breve Tratado sobre o Mal no Decreto Permissivo Divino na Providência – Parte I

Texto Base: Atos 4.23-28

Introdução: No capitulo anterior, eu disse que nosso Estudo tomava a direção do que chamei de divisor de águas, pois a partir deste capitulo, abordaremos temas mais complexos dentro da Doutrina da Soberania Divina. E entre os temas mais espinhentos desta Doutrina, está a relação do mal na ordem dos Decretos de Deus. Afinal de contas: o que é o mal? Como as Escrituras o definem? Mal e pecado são a mesma coisa? Como entender a relação entre Deus, os homens e o mal?

A partir deste capitulo em diante, trabalharemos mais a fundo estas questões. É importante ressaltar que isto é um tratado breve, e como já falamos desde o inicio deste trabalho, o objetivo final não é encerrar ou fechar uma palavra final sobre o tema. Mas, dar um suporte e sanar dúvidas comuns, que muitos cristãos tem sobre o tema, e sim, também, refutar falaciosos quanto a acusações mentirosas sobre o Calvinismo a respeito deste Tema complexo. Muitos Gigantes da Historia da Igreja estudaram antes de nós e nos abriram a porta para adentrarmos nas profundezas deste tema. E recorreremos a eles. Tendo por base as Escrituras, sabedores de que aquilo que nos foi revelado nos pertence, e aquilo que nos foi encoberto pertence somente ao Senhor; Dt 29.29.

I – Como Trabalhar o Assunto: Este tema de fato é uma discussão antiga. Isto colocado, nosso objetivo não é esgotar o tema, muito menos sermos arrogantes como um certo autor queridinho dos Ocasionalistas de “resolver o problema entre Deus e o mal”1. Isto dizemos, porque nosso objetivo não é esgotar a discussão. Antes, mostrar pelas Escrituras e pelos autores calvinistas escolásticos; o que defendemos quanto a Teontologia2 e a Soberania Divinas quanto ao mal. Usaremos alguns modelos visando o auxilio e identificação do pensamento sobre o Tema.


1. O Conceito do Mal como uma Privação: Ainda nos aprofundaremos quanto a definição e conceito de mal nas Escrituras e sua dinâmica na Providência Divina. Mas por hora, nos deteremos no conceito do mal como uma privação. Segundo esta tese, o fato de Deus ser bom, e criar tudo de modo bom e perfeito; por lógica, a maldade e corrupção das coisas criadas, são produto do pecado, que pertence exclusivamente à criatura, homens e anjos, sendo que suas ações e escolhas são total e puramente livres.

De fato, podemos definir o mal como uma privação. Pois o conceito teológico do mal é a ideia da ausência ou privação do bem e como aquilo que se opõe à ordem divina estabelecida por Deus. É uma corrupção ou desordem da natureza NA criatura Uma deformidade moral. Todas as nossas Confissões definem isto. Mas, a ênfase de nossos adversários sobre este conceito é a tese da escolha plenamente livre e INDEPENDENTE da criatura quanto às suas ações e escolhas. A isto, portanto, refutamos com base em várias passagens – Is 53.1-12; Lc 22.3-6; Mt 26.20-25, 53-54, 74-75; 27.9-10; Mc 15.27.28.


2. Permissão Divina: O conceito de Permissão Divina, visa explicar mais aprofundado o modo complexo a relação Deus – pecado – privação. Paul Helm explica:


Mesmo que a privação(do mal) não faça sentido, ela ainda admite o caráter impecável de Deus, em virtude do qual Ele não poderia realizar uma ação má; Ele não poderia(na frase que se tornou comum) “ser o autor do pecado”. Então, como o pecado acontece, se a providência de Deus está no controle de todas as coisas, e Ele não pode produzir o pecado? A resposta para isso é a permissão de Deus. Deus permite o pecado.3


Podemos entender o conceito da Permissão Divina de duas maneiras – geral e específica. Negamos a primeira. Afirmamos a segunda. Na primeira, Deus sabe tudo o que acontece, direciona o acontecimento, envolve os agentes morais para que Sua vontade seja realizada, mas Ele NÃO ESTÁ efetivamente controlando ninguém. A isto refutamos porque esta tese visa manter a liberdade dos agentes m detrimento da determinação Divina.

Já o conceito da Permissão Específica é aplicada em uma situação de pecado ou mal. Deus simplesmente permite que o ato aconteça, porque Ele não age para impedi-la. Sendo Deus Todo Poderoso, Ele poderia evitar que determinado mal fosse praticado, mas não o faz, porque tem proposito/fins sábios e santos. Isto afirmamos, contudo aprofundaremos esta tese em um modelo fundamentado nas Escrituras.


II – O Compatibilismo ou Concursus Divino: No capitulo 03 introduzimos o conceito de concursus Divino, onde explicamos como o curso da Historia, para cumprir o Seu plano, ocorre de modo que Deus atue por meio de causas secundárias(calamidades, o pecado, por exemplo) e também por agentes livres(anjos, Satanás, homens); a fim de que TUDO concorra ou coopere para a Sua Glória. O compatibilismo então é uma forma de explicar o concursus ou cooperação de Deus no curso dos eventos da Historia mediante a Sua Providência ou cuidado da Sua criação. Especialmente no que diz respeito a ação do mal no propósito Divino dentro dos Decretos.

A pergunta aqui em tese é - Se o ato é determinado, o agente ainda é responsável? O compatibilismo responde – Sim. Então a outra pergunta de pronto é esta - Como Deus age em todos os atos sem anular a causalidade criada(ou vontade da criatura)?

O compatibilismo busca o equilíbrio entre as Verdades da Soberania de Deus e da responsabilidade da moral da criatura e a sua liberdade em harmonia, sem contudo anular nem prejudicar nenhum dos pontos.

Relação entre eles

  • Compatibilismo explica como a ação pode ser livre.

  • Concursus explica como a ação existe e é eficaz.

  • Um trata de liberdade e responsabilidade, o outro de ontologia da ação.

Como entender essa relação tão complexa? É o que buscaremos entender mediante o que as Escrituras ensinam.



1. A Providência Divina e o Mal: A Bíblia ensina que Deus mediante a Providência, permite os atos de malícia dos homens. De um modo mais específico, Nós, porém, afirmamos com a Escritura, sem vacilar: Deus, em seu conselho eterno, decretou a ocorrência de atos que, em sua natureza moral, são pecaminosos. Que fique claro desde já: decretar o pecado não é aprovar o pecado, nem produzir o pecado, nem ser contaminado pelo pecado. É ordenar o evento físico (o ato entitativo) para que ocorra infalivelmente, enquanto se odeia e se proíbe a malícia moral inerente a ele. A Escritura não nos permite fugir desta verdade 4. Em outras palavras, o resumo é que Deus está por detrás tanto do bem quanto do mal, mas de um modo que o mal é realizado pelos agentes livres, moralmente responsáveis – que desejam realizar o mal; e que o Senhor utiliza a instrumentalidade desses agentes secundários(ou causas secundárias) para a realização do Seu propósito soberano. Em suma – o cumprimento dos Seus Decretos. Isto colocado, é importante frisarmos: decretar o pecado, NÃO É aprovar o pecado, NÃO É produzir o pecado é NÃO É ser contaminado pelo pecado. Deus como Senhor e Soberano, ordena o evento físico para que ocorra infalivelmente; enquanto se odeia e se proíbe a malicia moral inerente a ele. Nas Escrituras, encontramos exemplos cristalinos desta Verdade. Vejamos:


A venda de José: Seus irmãos cometeram um ato abominável, motivado por inveja e ódio. Contudo, José declara: "Não fostes vós que me enviastes para cá, senão Deus" (Gn 45:8), e mais explicitamente: "Vós bem intentastes mal contra mim; porém Deus o intentou para bem" (Gn 50:20). O mesmo evento, duas intenções opostas: uma má e pecaminosa (dos irmãos), outra boa e salvífica (de Deus).


O endurecimento de Faraó: A Escritura afirma tanto que "Faraó endureceu o seu coração" (Ex 8:32) quanto que "O SENHOR endureceu o coração de Faraó" (Ex 10:20). Deus não foi um espectador passivo, mas um agente ativo no endurecimento, para manifestar Seu poder (Rm 9:17-18).


2. A Ação do Homem no Mal: Ainda que Deus determine e utilize dos meios e das criaturas para cumprir os Seus propósitos no curso da Historia; a Bíblia é semelhantemente clara em afirmar que a mesma criatura, é livre e moralmente responsável por seus atos. Dois textos são interessantes para exemplificarmos o que afirmamos.

O primeiro diz respeito ao episódio do levantamento do censo feito por Davi. No relato de 2Sam 24, lemos claramente que a ira de Deus se ascendeu novamente contra Israel, e que Ele(Deus), incitou a Davi contra eles(o povo) para levantar o censo – 24.1. Agora, olhando a mesma passagem, a luz de 1Cr 21, lemos que Deus fez isso por meio de Satanás. Afinal, como entender este evento?

Simples. Embora Deus soberanamente, seja direta ou indiretamente, incitou a Davi sobre o levantamento do censo; o autor da ação segundo ambas as passagens foi somente Davi, veja 2Sm 24.3-4; 1Cr 21.3. A soberania Divina agiu ativamente em todo o curso do evento; mas Davi foi o culpado por seu pecado, 2Sm 24.10.

O segundo texto se encontra em Atos 4. O ato mais vil da história humana. Foi um pecado terrível de Judas, dos judeus e dos romanos. Contudo, é declarado de forma cabal que Jesus foi "entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus" (At 2:23). A igreja primitiva ora, dizendo que Herodes, Pilatos e os gentios se ajuntaram para fazer "tudo o que a tua mão e o teu conselho tinham anteriormente determinado que se havia de fazer" (At 4:27-28). Analisando esta mesma passagem, o Rev Heber Campos pontua que:


Alguns detalhes da traição de Cristo foram até planejados cuidadosamente, como é o caso dos fariseus e membros do Sinédrio. Nenhum deles fez coisa alguma contrária à sua natureza. Eles fizeram tudo o que estava de acordo com as disposições dominantes da alma deles. O prazer deles foi cuspir em Jesus, dar-lhe bofetadas, zombar dele, prendê-lo, açoitá-lo, sentenciá-lo à morte e, por fim, serem instrumentos malignos da sua execução na cruz… Todas estas coisas foram feitas voluntariamente, sem serem forçados por nada de fora a fazerem o que fizeram. Simplesmente, eles deram ouvidos à sua natureza5


Deus não só planejou todos estes acontecimentos; como conduziu esses homens a fazerem tudo isso, para que Seus fins justos fossem estabelecidos. Ainda sim, esses mesmos homens são moralmente responsáveis e culpados por seu pecado, sua incredulidade e sua maldade.


III – Todas as Ações de Suas Criaturas – Homens e Anjos: Podemos concluir com base em tudo o que já dissemos até aqui; é que a Permissão Divina a qual nos referimos em relação ao Decreto, é a mesma definida na Confissão de Fé de Westminster:


A onipotência, a sabedoria inescrutável e a infinita bondade de Deus, de tal maneira se manifestam em sua providência, que esta se estende até a primeira Queda e a todos os pecados dos anjos e dos homens, e isto não por uma mera permissão(“deixa as coisas acontecerem”), mas por uma permissão tal que, para os seus próprios e santos desígnios, sábia e poderosamente os limita e regula, e governa com uma múltipla dispensação, mas essa permissão é tal, que a pecaminosidade dessas transgressões procede tão somente da criatura e não de Deus, que, sendo santíssimo e justíssimo, não pode se o autor do pecado nem pode aprová-lo6


Por fim, é necessária humildade e admitir que, embora os ensinos das Escrituras sejam muitas vezes complexos, e de difícil entendimento; eles são claros quanto a Sua Verdade, muito embora permaneçam de certo modo misteriosos. A Confissão sabiamente enfatiza ambas as Verdades abordadas até aqui – embora Deus tenha todo esse envolvimento direto ou indireto nas ações e intenções dos homens; Ele não é de modo algum autor do pecado. E esse mesmo Deus chama aos Seus a viver por Ele, que é bom, justo, reto; e temer a Sua disciplina e justa condenação, pois Ele odeia o pecado.


Conclusão: De fato a relação Deus-mal-homem é um tema complexo nas Escrituras. Contudo, a mesma Escritura nos dá o suporte necessário para pensar sobre este tema. De maneira que podemos enxergar no Compatibilismo as ações soberanas de Deus no curso da Historia, bem como a responsabilidade moral dos homens frente a estas ações. Ninguém por mais que não entenda, despreze ou simplesmente não aceite; está alheio ao poder providencial de Deus, sendo Ele cada vez mais glorificado por meio da Verdade revelada em Sua Palavra. Soli Deo Glória!


Juliana Correia



1A autora faz uma referencia ao famoso livro de Gordon Clark, Deus e o Mal Problema Resolvido

2Estudo ou discurso na teologia que visa compreender o ser de Deus: Sua essência, Seus atributos, e Sua natureza

3A Providência de Deus, Cultura Cristã

4SIDON Daniel, Breve Tratado Sobre O Decreto, A Providência E O Concurso Divino, Cap VIII, Tese III, Calvinismo Clássico

5CAMPOS, Heber Carlos, A Providência, Cultura Cristã

6Capitulo V: Da Providência, Parágrafo IV

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