SÉRIE: O que a Bíblia ensina sobre a Doutrina da Soberania e a Providência Divina - Capitulo 09
Capitulo 09 – Salvos para Sempre
Breve Tratado Sobre a Perseverança dos Santos
Texto Base: Romanos 8.31-39
Introdução: Chegamos em um dos subtemas que mais gosto de trabalhar quando estudamos os chamados Cinco Pontos do Calvinismo, ou Doutrinas da Graça dentro da Soteriologia – A Doutrina da Perseverança dos Santos. Tema este, extremamente importante quando estudamos a Soberania Divina. Isto porque, defendemos junto com os Reformadores, o mesmo que Jesus e Seus santos apóstolos também defenderam; em oposição a nossos caluniadores em respeito a segurança e garantia do crente frente a sua salvação.
E “como defender tal Doutrina”, dizem eles, “se vemos muitos que diziam seguir a Cristo, crer em Cristo, no decorrer da caminhada desistiram e simplesmente ficaram pelo caminho, ou pior, se tornaram pedra de tropeço para a Igreja de Cristo?”
A estes acusadores, respondemos – a Doutrina da Perseverança dos Santos É BÍBLICA e muito bem embasada nas Escrituras. E é o que mostraremos com robustez em nossa tese.
I – Definição da Doutrina: A Perseverança dos Santos, foi uma das doutrinas basilares da Fé cristã resgatadas pela Reforma Protestante, e uma das mais atacadas vilmente por nossos opositores. Vale ressaltar que um dos primeiros teólogos a ensiná-la explicitamente no Período da Patrística, foi Agostinho de Hipona, embora não muito coerente neste ponto. Como comenta Louis Berkhof, “Ele sustentava que os eleitos não podem cair de modo que se percam definitivamente, mas, ao mesmo tempo, achava possível que alguns que foram revestidos da nova vida e da fé verdadeira possam cair completamente da graça e, por fim, sofrer a condenação eterna”1.
Mas, antes de trabalharmos no conceito teológico de tão santa Doutrina, primeiro abordaremos o que a Perseverança dos Santos NÃO É. Como bem explica Anthony Hoekema, a Perseverança dos Santos “não significa que todo frequentador, ou mesmo todo membro dela, irá perseverar até o fim em sua fé, ou que qualquer pessoa que tenha feito pública profissão de fé esteja eternamente segura, ou ainda que qualquer que nos pareça um verdadeiro crente jamais desistirá da fé”2.
Isto colocado, passemos agora ao Conceito Teológico da Doutrina da Perseverança dos Santos.
Teologicamente, a Perseverança dos Santos, é definida em que aqueles que Deus regenerou e chamou eficazmente para um estado de graça não podem cair NEM TOTAL NEM DEFINITIVAMENTE mas certamente perseverarão nele até o fim e serão salvos para toda a eternidade.
E ainda sobre a certeza dessa perseverança, a Confissão de Fé nos ensina que:
“Os que Deus aceitou em seu Bem Amado, os que Ele CHAMOU EFICAZMENTE e santificou pelo Seu Espirito, NÃO PODEM cair do estado de graça, NEM TOTAL NEM FINALMENTE; mas com toda a certeza hão de perseverar nesse estado até o fim, e estarão eternamente salvos”3
II – Evidências Bíblicas sobre a Perseverança dos Santos: As Escrituras estão repletas de passagens que testificam a veracidade desta santa Doutrina. E por que? Em primeiro lugar, porque ela não procede da capacidade nem da força humana, pois segundo a mesma Bíblia nos ensina que os salvos são guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação preparada para revelar-se no último tempo; 1Pe 1.5. E em segundo lugar, porque como já dissemos, a Bíblia testifica em várias passagens a certeza de que é o próprio Deus quem guarda o crente em perseverança. Há cerca de 25 passagens nas Escrituras, que atestam sobre a garantia de que Deus guarda aos Seus até o fim.
E dentre estas 25 passagens, destacaremos duas para uma breve análise.
A primeira que gostaria de refletir brevemente é do Evangelho segundo João, no capitulo 10. O tema central dessa passagem nos é revelado Jesus como o Supremo pastor. Vale destacar que, a certa altura de seu discurso, Jesus afirma categoricamente aos seus ouvintes que existem dois grupos distintos – o das SUAS ovelhas, 10.29; 6.40-45, sobre quem Ele AFIRMA: “Eu lhes dou a vida eterna; JAMAIS perecerão, e NINGUÉM as arrebatará da minha mão”, 10.28. Comentando esta mesma passagem, McGregor Wright argumenta:
“Este verso assinala três coisas a respeito das ovelhas. Primeira, elas possuem vida eterna agora, não apenas uma possibilidade de uma vida futura eterna. Segunda, elas nunca poderão perecer(jamais perecerão); finalmente, ninguém pode arrancá-las das mãos seguras do Filho. A expressão ninguém deve presumidamente incluir as pessoas salvas, Satanás e qualquer outro possível candidato para desafiar o poder guardador do Bom Pastor. Estas três coisas sozinas garantem a segurança eterna daquelas ovelhas”4
A segunda passagem que destacamos é justamente o nosso texto base, Romanos 8. Nela, o apóstolo inicia seu argumento já afirmando que aqueles que estão em Cristo não sofrem mais condenação, 8.1. Só este primeiro verso já seria suficiente para demonstrar como somos guardados por e em Deus em Cristo até o fim. Como filhos e herdeiros de Deus, em Cristo, temos a certeza de que a obra da salvação e preservação será completa em nós, 8.30.
Contudo, é a conclusão do capitulo que nos chama a atenção quanto à argumentação paulina; 8.31,35; 38-39. Pois temos a garantia plena da salvação ETERNA dos crentes. A conclusão, é a de que nem aqueles que são salvos tem condições de desejar ou de lutar contra a sua própria salvação eterna. Por estas razões, o cristão não tem dúvidas; mas plena convicção quanto à sua salvação.
III – Santificação Necessária: Chegamos no ponto fundamental da nossa Defesa quanto a fundamentação e base bíblica sólida da Doutrina da Perseverança dos Santos.
Tese dos adversários: “essa doutrina leva o crente a uma vida de pecado e comodismo no mesmo, já que sabem que nunca perderiam a salvação”.
A isto, afirmamos com as Escrituras que, Deus não levará ninguém que Ele não tenha santificado na terra, Hb 12.14. Agora, ainda que a santificação seja uma Obra iniciada, garantida e preservada pelo próprio Deus mediante Seu Santo Espirito; isto não exclui a nossa responsabilidade em buscar e viver de modo digno que agrade ao Senhor. Por isso, afirmamos que a santificação tem dupla ação. De Deus em nós pois é Ele quem opera mediante o Seu Espirito toda a obra santificadora em nós, nos capacitando a odiar o pecado, desejar as coisas de Deus e da Sua palavra, e a andar em santidade. E nossa, pois uma vez que Deus nos capacita mediante Seu Espirito a viver em santidade; é portanto uma responsabilidade pessoal e intransferível de cada crente, desenvolver a sua salvação(no sentido de andar e buscar a santidade).
O texto que expressa bem o que afirmamos, é Efésios 5.18. O verbo encher neste texto, também pode ser traduzido por sede cheios, plenos; aponta para a responsabilidade, pois os termo é imperativo, bem como uma ação soberana do Espirito em nos preencher. O Espirito é soberano, Jo 3.6-8, que habita no cristão, Jo 14.16-17 e nos auxilia em nossa fraqueza, Rom 8.26-27.
Dito isto, respondemos a nossos acusadores, apresentando duas Verdades definidas e defendidas nas Escrituras:
1. Deus nos santifica: A Bíblia é cristalina em muitas passagens ao afirmar que a Obra de Deus quanto a nossa salvação, selo e santificação; é totalmente Dele – 1Ts 5.23; Jo 17.17; Ez 20.12; Hb 2.11; 2Co 3.18.
Como já demonstramos em outra Série de Estudos5, reiteramos que o termo santificar tem uma aplicação dupla, no sentido de “separar para determinado uso, consagrar”, quanto a templos e objetos de uso litúrgico; bem como quanto ao processo pelo qual todos os crentes passam entre a sua regeneração e sua salvação final, seja através de sua morte ou da volta de Cristo.
Dito isto, o que a Bíblia ensina quanto a santificação do crente, é que a manifestação de Deus em nós, mediante a Sua palavra e do Seu Espirito, conforme At 20.32. garante que aquele que começou(ou iniciou) boa obra em vós ha de completá-la até o Dia de Cristo Jesus – Fp 1.6. Conclui-se portanto que, se não fosse a ação e o poder do Senhor em nós, não conseguiríamos por iniciativa ou mérito próprio nem mesmo nos arrepender dos nossos pecados! Buscamos a santificação, porque É DEUS quem inicia a obra em nós. E é Eles mesmo quem a completará até o fim.
2. Devemos nos santificar: Ao longo de nosso Estudo, temos demonstrado com várias evidencias tanto bíblicas quanto teológicas que a Soberania Divina e a Responsabilidade Humana caminham JUNTAS no que diz respeito ao Decreto Divino. De maneira que a santificação do crente é uma ordem e uma responsabilidade a ser cumprida por cada crente. O autor aos hebreus nos fala isto claramente – 12.14.
É impossível haver um crente alcançado pela graça divina, regenerado pelo Espirito, que experimentou verdadeiramente a fé salvadora, e que não deseje abandonar o pecado e buscar a santidade – 1Pe 1.16. Isto corrobora com a exortação do apóstolo: Não reine portanto o pecado em vosso corpo mortal, de maneira que obedeçais às suas suas paixões – Rom 6.12.
Aos nossos acusadores, entendam o que a Bíblia ensina: somos ordenados a sermos santos, porque o próprio Deus é quem nos habilitou a isso! - Fp 2.12-13. Portanto, não há confusão alguma em sermos exortados a perseverar até o fim, mesmo que saibamos que é Deus quem realiza esta obra – Mt 24.13; Dt 1.36; Js 14.9; 1Rs 11.6; Pv 23.17; At 13.43; Rm 2.7; Hb 12.7; Tg 5.11; Jd 24.
A marca dos verdadeiros cristãos alcançados pela Graça segundo as Escrituras; é uma vida repleta do fruto do Espirito, veja Gl 5.22-23. Não há vida com Deus para quem não obedece a Sua Palavra, 1Sm 15.22.
Conclusão: A Doutrina Bíblica da Perseverança dos Santos ensina que a obra divina da salvação dos eleitos é completa e definitiva. Deus nos elegeu antes da fundação do mundo; Ele alcançou aos Seus na morte e ressurreição do Cristo, mediante a operação do Espirito em nós, e agora nos leva à Cidade Celestial, nos preservando em santidade. Ainda sim, somos chamados à obediência, portanto, que nos revistamos das boas obras, que são próprias aos que tem sido zelosos pelas boas obras. - Tito 2.14.
Juliana Correia
2Salvos Pela Graça, São Paulo, Cultura Cristã
3Confissão de Fé de Westminster, Capitulo XVII, Da Perseverança dos Santos
4McGregor Wright, A Soberania Banida, São Paulo, Cultura Cristã
5Santidade, Avivamento e Crescimento: Da Apatia Espiritual à Intimidade com Deus. PDF de nossa autoria, produzido em 2023
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