SÉRIE: O Que a Bíblia diz Sobre a Soberania e a Providência Divina - Capitulo 07
Capitulo 7 – Só Deus Salva
Texto Base: Atos 4.12
Introdução: Nos últimos 6 capítulos de nossa Série sobre a Soberania e Providência Divina, vimos como Deus dirige e governa a Historia, tendo-a determinado na eternidade, e para a Sua glória, se utiliza até mesmo dos homens com sua liberdade criada para concorrer aos Seus propósitos eternos. Chegamos agora a um ponto crucial dentro de nossa Série – a obra da salvação, quanto ao propósito eterno de Deus. Pois não há nada mais sublime e extraordinário para os cristãos do que enxergar em cada página da Sagrada Escritura, Deus regendo o curso da Historia a fim de salvar para Si um povo exclusivamente Seu.
I – Salvação – Escolha de Deus, Obra da Santíssima Trindade: Do Gênesis ao Apocalipse, é nos revelado o propósito de Deus em resgatar um povo mediante o Descendente da mulher que esmagaria a cabeça da serpente, veja Gen 3.15. Todo o Ato Salvífico é Obra da Santíssima Trindade. E uma das passagens que relata com riqueza de detalhes tal Obra, é Efésios 1.3_14. A estrutura desta passagem se divide de modo que podemos enxergar os papéis que cada uma das Pessoas da Trindade, executou para que Deus assim efetuasse o resgate de Seu povo.
1. A obra do Pai: É nos mostrado no texto de Efésios, que Deus o Pai, é aquele que tem abençoado o Seu povo com toda a sorte de bençãos espirituais. Também é apontado que esta graça se dá em Cristo. Este detalhe no texto demonstra que nada feito em nosso favor é na realidade qualquer mérito nosso. Deus derramou tamanhas graças única e exclusivamente porque Cristo é o nosso mediador; veja Hb 7.22, 8.6, 9.15, 12.24, 1Tm 2.5.
O texto segue nos afirmando que Deus o Pai nos escolheu… ANTES da fundação do mundo… e em amor nos predestinou para Ele, 1.4-5. É impossível negar estas afirmações, por mais malabarismo teológico que muitos ditos “teólogos” fazem com frequência, especialmente nas Redes Sociais com a finalidade pífia de lacrar nas Redes. Pois o apóstolo é claríssimo na sua argumentação. Dizer que fomos escolhidos e predestinados por Deus sem fazer qualquer menção às nossas obras; veja Rm 9.11-13, é um golpe mortal aos que desejam ardentemente confiar em si mesmos.
Mas, qual é a finalidade da eleição? Segundo o texto de Paulo aos crentes efésios; o propósito é estabelecido de forma clara – para sermos santos e irrepreensíveis perante Ele. Isto refuta a tese falaciosa dos palpiteiros que nos acusam levianamente de que “somos predestinados a pecar já que somos eleitos e podemos pecar a vontade”. Ainda quanto à finalidade, o louvor da glória de Deus é o objetivo principal da salvação, 1.6. Deus enviou Cristo ao mundo para o louvor da SUA glória, antes mesmo do que pelo Seu amor por nós. Quando entendemos esta Verdade; entendemos de fato o ensino bíblico a respeito do Ser de Deus e das obras que Ele realiza.
2. A obra do Filho: Paulo enfatiza neste texto aos efésios, a centralidade da obra do Filho na salvação dos eleitos, 1.7-12. No argumento do apóstolo, Cristo é o verdadeiro Amado, aquele por meio de quem os eleitos recebem o amor de Deus, mediante a Sua obra redentora, 1.7.
E aqui nós temos o cerne da Expiação Particular e Eficaz – embora a redenção efetuada pelo Cristo seja universal no sentido de que alcança homens em todos os lugares do mundo, e em todo o tempo no curso da História desde nossos primeiros pais ainda no Éden; é fato que de modo específico e particular, ela é derramada pela Graça de Deus aos eleitos, 1.9-10. Expondo sobre a eleição Divina, Calvino argumenta:
“Já está suficientemente claro que Deus, por seu desígnio secreto escolhe livremente àqueles a quem quer, rejeitando a outros, mas sua eleição gratuita ainda não foi exposta, a não ser pela metade, até que venha às pessoas individualmente, às quais Deus não só oferece a salvação, mas de tal modo a confere, que a certeza de conseguir tal feito não fica suspensa nem duvidosa. Estes são contados naquela semente singular de que Paulo fez menção(Rm 9.8, Gl 3.15). Ora, ainda que a adoção fosse depositada na mão de Abraão, no entanto; visto que muitos dentre sua prole foram podados como membros apodrecidos, para que a eleição fosse eficaz e verdadeiramente estável, é necessário que ascendesse ao Cabeça, em quem o Pai celestial ligou entre si a seus eleitos e a si os vinculou por união insolúvel”1
Assim, segundo Efésios 1.11, Deus é o agente que inicia, sustenta e concretiza Seu Decreto Eterno, de modo que mais uma vez a Predestinação é colocada em evidência, garantindo que a obra do Filho foi a realização da vontade do Pai.
3. A obra do Espirito Santo: Uma vez que Deus o Pai Decreta e determina salvar aos que desde a eternidade escolheu, Deus o Filho é aquele que voluntariamente realiza a vontade doo Pai, e Deus o Espirito Santo é aquele que aplica esta salvação ao Seu povo, 1.13-14. Paulo utiliza de duas figuras para sustentar seu argumento. A primeira é a do selo. E a ideia é a de uma propriedade particular chancelada pelo próprio Deus, pelo Seu Espirito. Isto significa que Deus está formando um povo para Si, a Igreja, composta por todos aqueles que foram alvos de Sua graça no curso da História, veja Tt 2.14; 1Pd 2.9-10.
A segunda figura usada por Paulo é a do penhor. E isto aponta para a garantia que o comprador tem de que a propriedade adquirida lhe pertence. Da mesma forma; o Espirito Santo além de nos fazer propriedade do Senhor, é também a garantia que temos da consumação da obra da salvação em nós - de que aqueles que foram alcançados pela graça, tendo sido eleitos pelo Pai, resgatados pelo Filho, e selados pelo Espirito, não podem perder a salvação. Novamente; isto refuta àqueles que levianamente nos acusam de fazer com que esta garantia nos “leve a pecar”, muito pelo contrário, isto nos afasta dele! E novamente, a glória de Deus é o foco e o destaque. Pois é por causa de Sua glória que Deus operou poderosamente tão grande salvação.
II – Regeneração e Conversão: A regeneração ou o que a Bíblia chama de Novo Nascimento conforme lemos em João 3, é a primeira etapa da aplicação da obra da salvação na vida do eleito. Isto se dá porque, todo ser humano NASCE ímpio, morto em seus pecados, como Paulo afirma no capitulo 2 de sua carta aos crentes efésios. Conforme lemos na nossa Confissão:
Todos aqueles a quem Deus predestinou para a vida, e SÓ ESTES, é ele servido chamar eficazmente pela sua palavra e pelo seu Espirito, no tempo POR ELE DETERMINADO E ACEITO, tirando-os daquele estado de pecado e morte em que estão por natureza para a graça e salvação, em Jesus Cristo. Isso ele faz iluminando o entendimento deles espiritual e salvificamente, a fim de compreenderem as coisas de Deus, tirando-lhes o coração de pedra e dando-lhes um coração de carne, renovando as suas vontades e DETERMINANDO-AS, PELA SUA ONIPOTÊNCIA, para aquilo que é bom, e atraindo-os EFICAZMENTE a Jesus Cristo, mas de maneira que eles vem mui livremente, sendo para isso, DISPOSTOS PELA SUA GRAÇA(grifos meus)2
Portanto, somente uma ação sobrenatural do Espirito pode transformar o coração de pedra do pecador, endurecido e morto pelo pecado, em um coração de carne, submisso e inclinado a confiar em Deus, veja Ez 11.19-20; 36.26. As pessoas só são regeneradas porque esta é a vontade e iniciativa de Deus – Jo 1.13.
Afirmamos portanto, que a relação entre a eleição e a regeneração é total e completa. Jesus é cristalino ao enfatizar que todo aquele que O PAI ME DÁ, ESSE virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum lançarei fora. E outra vez afirma que NINGUÉM pode vir a mim se o Pai que me enviou NÃO O TROUXER; e eu o ressuscitarei no último dia – Jo 6.37;44. Com estas duas afirmações bem claras do Senhor, concluímos que a Obra redentora do Cristo, não é uma “possibilidade” de salvação; mas eficazmente e totalmente salva pecadores. Nosso Deus não trabalha com “possibilidades”, ele AFIRMA ENFATICAMENTE que salva. Ao morrer na cruz, Jesus não gritou como última palavra “está possibilitado”, mas AFIRMOU: ESTÁ CONSUMADO, ratificando a Verdade da Obra completa e sem qualquer falha.
Como vimos até aqui, a conversão é uma evidência externa da regeneração. Só podemos nos arrepender de nossos pecados e de fato crer em Cristo para nossa salvação; porque PRIMEIRAMENTE Deus nos HABILITA A ISTO mediante o Novo Nascimento. Certamente alguém dirá: “mas Deus chama a todos os homens ao arrependimento, e deseja que todos sejam salvos. Isso não seria possibilitar a salvação a todos sem exceção?” A isto, respondemos enfaticamente: NÃO. Pois como já demonstramos no decorrer de nosso Estudo, o homem natural(nascido em pecado), é INCAPAZ de voltar se para Deus, a menos que Deus o capacite a isto, mediante Seu Espirito. Sobre isto, McGregor Wright afirma:
O cerne da doutrina da graça irresistível é que nós seríamos totalmente incapazes de abraçar Jesus Cristo como nosso Salvador, ou de continuar em obediência, se Deus não nos tivesse dado capacidade – não, a vida – para fazer assim3.
III – Predestinação e Evangelização: Uma dúvida sincera de muitos, e uma falácia do espantalho de outros quando falamos sobre a Soberania Divina na salvação, diz respeito a ordem da Grande Comissão. Afinal, a tese é de que “se Deus é soberano e tem os seus eleitos, para que pregar o Evangelho? De qualquer modo, cedo ou tarde aqueles que são eleitos, serão salvas mesmo, certo?” Seja por ignorância, ou por falacia; estas pessoas padecem de conhecimento das Escrituras.
A Doutrina da Predestinação é o nosso maior incentivo a pregar o Evangelho. Paulo expôs esta Verdade profundamente em Rom 9 ao falar sobre a eleição. Em Rom 10, ele ensina que o modo pelo qual os eleitos serão alcançados foi designado por Deus: por meio da pregação do Evangelho. O Deus que determinou os fins, do mesmo modo determinou os meios. Novamente, citamos a nossa Confissão:
A fé justificadora é a que salva. É operada, pelo Espirito e pela Palavra de Deus(pregação do Evangelho) no coração do pecador que, sendo por eles convencido de seu pecado e miséria e da sua incapacidade… não somente aceita a verdade da promessa do Evangelho, mas recebe e confia em Cristo e na sua justiça que lhe são oferecidos no Evangelho...4
Se a salvação dependesse dos homens, de fato não teríamos a menor esperança de salvação. Porém, como ela depende de Deus, da Sua graça, e da Sua misericórdia, temos a plena certeza de que a Palavra pregada não voltará vazia. Soli Deo Glória!
Conclusão: Compreender que a nossa salvação é uma obra da Santíssima Trindade traz conforto, paz e significado para nossa vida após nossa regeneração e conversão. Transformados pelo Espirito Santo por meio da Palavra de Deus, temos uma nova vida em Cristo para pregar o Evangelho e alcançar os eleitos que ainda vivem nas trevas.
Juliana Correia
1Institutas, Capitulo XXI, Parágrafo 7.
2A Confissão de Fé de Westminster, Cp. 10: Do Chamado Eficaz, parágrafo 1
3A Soberania Banida, Cultura Cristã
4Catecismo Maior de Westminster, Pergunta 72.
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