Série O Que A Bíblia diz sobre a Soberania Divina

CAPÍTULO 3 – Quem é Mesmo o Soberano?

Texto Base: Salmo 145

Introdução: Discussões e questionamentos quanto à Doutrina da Soberania Divina não são novidade nas Redes Sociais. Já nos primórdios da Igreja em expansão, tal discussão já existia. Com uma decisão tomada pela Igreja, inclusive, quanto a esta disputa digamos, exaustiva na Historia da Igreja; protagonizada entre Agostinho, bispo de Hipona e Pelágio, um monge da Bretanha. Essa disputa histórica, ocorreu durante o período Patrístico. Por volta do ano 400 AD; Pelágio viajou à Roma para defender suas teses contra a Doutrina defendida por Agostinho. Pelágio defendia que, o homem depender de uma ação soberana de Deus para poder obedecê-lo, levaria as pessoas à um esgotamento moral. Por sua vez, Agostinho ensinava a necessidade da graça e da misericórdia de Deus sobre a humanidade condenada e escrava do pecado. O Pelagianismo – Doutrina baseada nos ensinos de Pelágio; foi condenado como Heresia pela Igreja nos Concílios de Cartago em 418; Éfeso em 431 e Orange II em 5291.

E mesmo depois de tantos séculos; a Heresia Pelagiana sobrevive em segmentos como a ICAR; e supostos Movimentos tidos como cristãos dentre os protestantes. E tentam diminuir a Soberania de Deus, quanto a Sua Providência no mundo.

I – O Governo Soberano de Deus: Como já demonstramos nos capítulos anteriores, Deus como Soberano, governa sobre TUDO e sobre TODOS.

E ao agir na História, em tudo o que faz; Deus manifesta Seus atributos – amor, bondade, justiça, misericórdia, santidade, etc. Contudo, é preciso entender que, as Escrituras nos ensinam que Deus não age “dividido” ou impelido por apenas 01 de Seus atributos; ou ainda com base em um único atributo em detrimento dos outros. Isto significa que, quando Deus age na Historia; Ele o faz manifestando TODOS os Seus atributos em plena harmonia. Como nos mostra o Gráfico abaixo:






Assim, conforme vemos por este gráfico muito bem explicado; embora a Bíblia nos afirme que a misericórdia de Deus dura para sempre – Sl 100.5; 106.1; 118.29; 136 ss; a mesma Bíblia também nos ensina que Deus puni o pecador, como derrama Sua ira justa sobre o ímpio – Jó 36.13; Sl 5.5 e 6; 7.9; 9.16; 17.13; 37.20, 28. Resumindo: Deus é amor na mesma proporção que é justo, santo, etc.

Outro ponto a ser considerado é que Deus age na Historia, conforme o que Ele mesmo determinou desde a eternidade. E no governo do curso dessa Historia; Deus executa Seu plano por meio da Sua Providência. Como bem nos ensina a Confissão de Fé:

Desde toda a eternidade e pelo mui sábio e santo conselho de sua própria vontade, Deus ordenou livre e inalteradamente tudo quanto acontece, porém de modo que NEM DEUS É AUTOR do pecado, NEM VIOLADA é a vontade da criatura, NEM É TIRADA a liberdade ou a contingência das coisas secundárias, antes estabelecidas”2.

E ainda:

Pela mui sábia Providência, segundo a sua infalível presciência e o livre e imutável conselho de sua própria vontade, Deus, o grande Criador de todas as coisas, para louvor da glória de sua sabedoria, poder, justiça, bondade e misericórdia, SUSTENTA, DIRIGE, DISPÕE e GOVERNA TODAS as criaturas, TODAS as ações delas e TODAS as coisas, desde a menor até a maior”3.

Portanto, conforme nos mostra a CFW; Deus planejou, desde a eternidade, de acordo com sua vontade tudo quanto acontece, sendo Ele mesmo quem sustenta, dirige, dispõe e governa todas as criaturas, todas as ações delas e todas as coisas, desde a menor até a maior.

Quando olhamos para as Escrituras, a lista de passagens é bem extensa. Davi por exemplo, no Salmo 139.16, diz que os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos TODOS os meus dias, cada um deles ESCRITO E DETERMINADO, quando nenhum deles havia ainda. Paulo em suas cartas também dedicava grande parte de seu conteúdo, expondo e defendendo a Soberania Divina. Diz ele aos cristãos em Éfeso que ele faz TODAS as coisas conforme o conselho da sua vontade, Ef 1.11.

Como já dissemos, nas Escrituras, encontramos diversos textos tratando da Soberania Divina: Gn 45.5; Ne 9.6; Sl 145.14-16; Is 45.1-7; Dn 4.34-35; Mt 10.29-31; At 2.23; 4.27-28; Rm 11.33-36; Hb 6.17.

II – Concursus(Ou Concorrentismo): Este termo vem do latim, e significa basicamente cooperação. Isto significa que a ação providencial de Deus no curso da Historia, para cumprir o Seu plano, ocorre de modo que Ele atue por meio de causas secundárias(calamidades, o pecado, por exemplo) e também por agentes livres(anjos, Satanás, homens); a fim de que TUDO concorra ou coopere para a Sua Glória. Posto isto; afirmamos que Deus não apenas supervisiona, como também garante que TUDO ocorra segundo a Sua vontade, embora as ações sejam realizadas por outro; Pv 21.1; 19.21.

1. Concursus com o ímpio: Quando falamos do concursus, afirmamos que, a direção do Senhor se estende a todas as suas criaturas, pelas quais Deus cumpre Seus Decretos Eternos. Isto inclui sem dúvida o perverso. Deus dirige as ações dos ímpios, a fim de cumprir os Seus propósitos.

Um excelente exemplo no AT é o Faraó, confirme relato no Livro do Êxodo, Ex 4.21; 7.3. Em Sua Providência; Deus dirigiu o curso dos eventos, usando Faraó e suas ações ímpias como agentes livres; cuja finalidade era a Glória do nome de Deus entre os povos. Paulo, expondo estes eventos aos crentes de Roma, afirma que … a Escritura diz a Faraó: Para isto mesmo te levantei, PARA mostrar em ti o meu poder e PARA QUE o meu nome seja anunciado por toda a terra. Logo, ele tem misericórdia de quem quer e também endurece a quem lhe apraz; Rm 9.17-18; cp com Ex 9.16.

Agora, é importante ressaltar que, não pensemos que Faraó foi simplesmente um “robozinho programado” e que não era moralmente responsável por suas ações de não dar ouvidos ao Senhor. Vejamos como o cocursus operou neste caso. A ação soberana de Deus é muito clara em várias ocasiões aqui; pois Ele mesmo disse que endureceria o coração de Faraó para cumprir o Seu propósito. Mas… também nos é dito no mesmo relato do Êxodo, que Faraó endureceu o próprio coração, não dando ouvidos a Moisés e Arão; Ex 8.32; 7.13-14, 22-23; 8.15; 9.7. Faraó não foi coagido, nem manipulado muito menos obrigado a impedir a saída do povo; ele fez isso porque quis, porque era mau. Todavia; Deus estava dirigindo o curso dos eventos a fim de que Sua vontade soberana fosse realizada, tudo concorrendo para esta finalidade. Para tal fim, Ele se utilizou até mesmo da própria maldade do Faraó.

2. Concursus com o cristão: Semelhantemente, a ação soberana de Deus sobre Suas criaturas, estende se também aos Seu eleitos. Vejamos o exemplo de Sansão. Da mesma forma que com Faraó, Deus em Sua Providência, dirigiu o curso dos eventos da vida de Sansão, a fim de cumprir os Seus propósitos; Jz 13.5; 14.3 e 4.

E do mesmo modo como tratamos o caso de Faraó; assim o afirmamos a respeito de Sansão: ele não foi obrigado, manipulado, nem coagido a fazer o que fez. Vejamos como o concursus operou neste caso. Deus tinha como propósito livrar a Israel dos filisteus, e Ele usaria Sansão para este fim. Mesmo suas ações erradas como desejar e casar com uma filisteia. Ele desejou aquela moça e para tê-la preferiu desobedecer a seus pais e a Deus. Todavia, Deus orientou o curso dos eventos para Sua Glória.

Deus tem um plano eterno e nos dirige e nos usa para cumpri-lo. Contudo, nós realizamos , fazemos coisas e tomamos decisões por nossa própria vontade. Isto porém, não exclui nossa responsabilidade nem tira de nós o senso de obediência à Palavra de Deus. Não somos robôs. Somos seres morais responsáveis.

III – Graça Comum: É comum o pensamento de que aqueles que praticam o mal são a exceção e não a regra. Mas, as Escrituras nos ensinam que quando os homens são deixados em seus próprios pecados; eles se afundam cada vez mais na maldade.

Uma outra forma de entendermos o governo soberano de Deus sobre os homens é chamado de graça comum. Diz nos Herman Bavinck que “por meio dela, Deus restringe os efeitos do pecado e confere dons gerais sobre todas as pessoas, tornando assim a sociedade e a cultura humana possível mesmo entre os não redimidos”4.

A graça comum é como um freio, uma coleira, que Deus usa sobre o pecado do homem. Rm 1.24, 26,28 deixa muito claro esta afirmação: … Deus entregou tais homens à imundícia, pelas concupisciências de seu próprio coração… Por causa disso, os entregou Deus a paixões infames… E por haverem desprezado o conhecimento de Deus, o próprio Deus os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem coisas inconvenientes”.

Note que a Bíblia ressalta três vezes que “Deus entregou” estes homens aos seus desejos e pecados. Em outras palavras; Deus retira destes homens, ou dos homens um senso que os inibe ou impede de pecar como gostariam. A remoção desta benevolência faz com que os homens, que AMAM pecar; se lancem aos seus desejos mais sombrios e imorais.

Outro ponto quanto a graça comum, é que ela é uma ação positiva de Deus sobre a vida de todos os homens, incluindo os ímpios, dando lhes possibilidades de se expressar como imagem e semelhança de Deus na criação; At 14.16-17.

Conclusão: O governo soberano de Deus ao longo da Historia revela a totalidade do Seu caráter, sendo no curso do tempo executado para o louvor da Sua Glória. Deus usa os homens como agentes livres e moralmente responsáveis para cumprir Seu plano; sendo que estes agem livremente de acordo com sua própria vontade. A graça comum contudo, impede que o mundo habitado por ímpios seja um lugar de ampla e voraz maldade; uma vez que aqueles que não creem em Cristo Jesus como seu suficiente Salvador, só desejem pecar e desagradar a Deus.


Juliana C. de Souza




1RK macgregor Wright, A Soberania Banida, São Paulo, Cultura Cristã

2Confissão de Fé de Westminster, Cap III Dos Decretos Eternos de Deus, 1

3Ide, Cap Vda Providência, 1

4Dogmática Reformada, Herman Bavinck, Cultura Cristã

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