Série: O que a Bíblia diz sobre a Soberania Divina

Capitulo 6 – Deus Igual a Nós



Texto Base: João 1.1_14


Introdução: Sempre que coisas ruins em grandes proporções acontecem, é comum questionamentos do tipo - “como/por que Deus deixou isto acontecer?, se Deus de fato existe, por que não impediu essa tragédia?” Pelo óbvio, a conclusão de tais questionamentos; “Deus não conhece o futuro, pois, se o conhecesse, ao permitir tais tragédias por consequência, Ele não seria Todo Poderoso. Ou, se é Todo Poderoso, mas não refreia tais ações(ruins), Ele se revela ser mau”.

O problema de tais conclusões, é a distorção que se faz quanto à imanência de Deus. Isto colocado, nossa proposta neste capitulo, é expormos como a Doutrina da imanência divina pode ser distorcida, gerando confusão e o perigo de nos afastar da Verdade da Palavra de Deus.


I – Deus se Importa: O que é imanência? O conceito de imanência implica ao fato de Deus se relacionar e se importar com a Sua criação. É importante ressaltar que transcendência e imanência andam juntos nas Escrituras. Explico: ao mesmo tempo que Deus é descrito na Bíblia como infinito, supremo, único e está além da nossa compreensão(conceito de transcendência); Ele também se importa com a Sua criação, interage com ela e a ama. Razão pela qual, providencialmente, o Criador cuida dela.

Quando falamos em harmonia entre a transcendência e a imanência Divina, o Salmo 113 é um bom texto para reflexão. Neste Salmo, o Deus transcendente, que é incomparável – 113.4-5; é o mesmo Deus que, se preocupa e se interessa pelo desvalido, pelo necessitado e também pela mulher estéril – 113.6-9.

E quando pensamos na imanência Divina, o conceito ganha muito maior força e importância, quando olhamos para a Doutrina da encarnação; pois Jesus Cristo, o Filho de Deus, sendo o próprio Deus, encarnou para morrer pelos pecadores – cf. Filipenses 2.6-8. O ápice da compreensão da imanência Divina é justamente a encarnação do Verbo entre os homens.


II – Distorções Teológicas:




Com efeito, tornar Deus como um Criador momentâneo, que tenha realizado sua obra de uma por todas  seria insensível e ignorante. E nisto, principalmente, convém que sejamos diferentes dos homens profanos: que a presença do poder divino nos resplandeça tanto no estado contínuo do mundo quanto em sua origem primeira



A citação é do Reformador João Calvino1. E o que Calvino enfatiza em seus escritos, é que as Escrituras afirmam piamente a imanência de Deus, de modo que ao tratar de tão importante tema, devemos ser atenciosos a fim de evitar distorções e ensinos errados como os que veremos a seguir


1. Teísmo aberto: A primeira distorção teológica quanto à imanência Divina, se encontra exatamente na teologia Arminiana que leva ao teísmo aberto, ou teologia relacional; que ensina basicamente, que Deus não pode conhecer o futuro e sendo assim não pode determiná-lo, porque isso seria uma afronta à liberdade humana. Defende ainda, que Deus não pode conhecer o futuro, pois, conhecendo-o e não impedindo as calamidades, conclui-se que Ele deseja o mal e torna-se diretamente culpado por isso. Por fim, a teologia relacional defende que Deus digamos, preferiu abrir mão de Sua soberania para obter relacionamentos verdadeiros, preferindo manter o futuro em aberto, para deixar o homem escolher “de verdade” se deseja ou não crer Nele e/ou obedecê-lo.

Para sermos coerentes; Jacó Armínio mesmo não parece ter defendido tais ideias. Tratando da Doutrina da Providência Divina em meio ao pecado dos homens, ele afirma o seguinte:



Note bem que na citação em questão, lemos Armínio argumentar que, ainda que Absalão tenha praticado incesto com as concubinas de Davi seu pai, mediante um conselho ímpio, Armínio afirma expressamente que “a Bíblia diz que Deus DIRIGIU e CONTROLOU TODAS estas ocorrências”2(claramente se referindo aos atos e eventos). Assim, quando nos referimos ao Arminianismo, estamos nos referindo aos remonstrantes e arminianos wesleyanos3, e não do próprio Jacó Armínio.

Dito tudo isto, conclui-se que o problema do teísmo aberto, é que ele molda um deus aos moldes do “Dr. Estranho”4: um “mago supremo detentor de todo poder da magia”, mas que como qualquer mortal, sofre com muitas dúvidas quanto às possibilidades de decisões. O Deus revelado nas Escrituras contudo, NADA tem em comum com esse deus fabricado pelo teísmo aberto. Deus não apenas prevê o futuro, como também o determina e garante que ele vai acontecer conforme o desígnio da Sua vontade – Hb 1.2-3; 11.3; Sl 24.1; 146.6; Is 42.5. Como a nossa Confissão5 já ensina:



Pela mui sábia providência, segundo a sua infalível presciência e o livre e imutável conselho de sua vontade, Deus, o grande Criador de todas as coisas, para o louvor da glória de sua sabedoria, poder, justiça, bondade e misericórdia, sustenta, dirige, dispõe e governa todas as criaturas, todas as ações delas e todas as coisas; desde a maior até a menor.

Posto que, em relação à presciência e ao decreto de Deus, que é a causa primária, todas as coisas acontecem imutável e infalivelmente, contudo, pela mesma providência, Deus ordena que elas sucedam, necessária, livre ou contingentemente,conforme a natureza das causas secundárias



2. A identificação de Deus com Satanás: Outra distorção teológica perigosa é a junção das ações de Deus e as ações de Satanás, resultando em uma confusão de teoria e de conduta. Vertentes como o Ocasionalismo e o Fatalismo, tendem a defender que qualquer coisa coisa que ocorre é a vontade ativa de Deus, ignorando se as causas secundárias; levou cristãos sinceros por exemplo, a endossar e até mesmo apoiar o que era realmente mau e anticristão!

Quando se enfatiza demasiadamente a imanência em prejuízo da transcendência; Deus se torna então eficaz e efetivo o causador de todos os atos, inclusive pecaminosos dos homens e dos anjos, de modo a causar, motivar e incentivar; tirando a responsabilidade moral das criaturas e as transformando em meros robozinhos programados.


3. A identificação de Deus com o universo criado: Outro erro em decorrência da distorção teológica da imanência de Deus, é cair no erro do Panteísmo(pan= tudo/todas as coisas e Theos= deus). Esta doutrina, ensina que não há nenhuma realidade transcendente e que tudo é imanente, por isso, Deus e o mundo formam uma unidade essencial, sendo, portanto, a mesma coisa, constituindo um todo indivisível. Assim, para o Panteísmo, TUDO é Deus; confundindo-se com matéria a energia física.

Contudo, as Escrituras não confundem Deus com a matéria, antes, afirma que Deus criou a matéria, Gen 1.1 e a sustenta com o Seu poder, Cl 1.17; Hb 1.3. Essa distinção entre o Deus Criador e a criação é um ensinamento fundamental das Escrituras.


III – A Importância da Doutrina da Imanência: A Doutrina da imanência Divina é essencial para o Cristianismo, e muito bem fundamentada nas Escrituras; pois se Deus não fosse imanente, por lógica, Ele não poderia se relacionar conosco! E nem o Verbo poderia encarnar-se para realizar a nossa redenção. Cremos num Deus separado dos homens: santo, distinto dos pecadores; mas também cremos num Deus que se revela e se envolve com o universo por Ele criado, regendo e sustentando pela Sua Providência.

Assim, como cristãos teístas que somos, temos de afirmar a Doutrina da imanência de Deus, sem contudo, cair nos erros que pontuamos até então.


Conclusão: Portanto, as Escrituras defendem claramente tanto a transcendência como a imanência Divina, em total harmonia, assim como todos os outros atributos de nosso Deus. A Bíblia ensina estas duas verdades – 1. os céus e a terra não podem conter Deus(1Rs 8.27; Is 66.1; At 7.48-49) e 2. todavia, Ele sustenta os céus e a terra, estando especialmente próximo daqueles que sinceramente O buscam(Sl 139.7-10; Is 57.15; Jr 23.23-24; At 17.27-28).

João Calvino6 exalta muito bem estas Verdades:


A glória de nossa fé é que Deus, o Criador do mundo, não descarta nem abandona a ordem que Ele mesmo no princípio estabelecera



Juliana C. de Souza






1As Institutas, Livro I., Cap. XVI, Parágrafo 1

2As Obras de Armínio, Vol. 1, Pag 319, CPAD

3Teologia de Jhon Wesley que mistura tanto elementos da Teologia Calvinista quanto Arminiana Clássica, criando uma simbiose teológica de ambas.

4Personagem das HQs da Marvel e que fez muito sucesso na Franquia Vingadores nos cinemas dos anos 2000

5Confissão de Fé de Westminster, Cap. V., Da Providência, Par. 1 e 2

6João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1 – Sal 11.4-5, pag. 241

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