Série O que a Bíblia diz sobre a Soberania Divina
Capitulo 4 – Soberania, Responsabilidade e Liberdade
Texto Base: Daniel 5. 22 e 23
Introdução: Como vimos no capitulo anterior, existe uma aparente tensão entre a Soberania de Deus e a liberdade do homem. Motivo de discussões sem fim nas Redes Sociais. O que nos leva a algumas perguntas – Como compreender a relação entre a Soberania Divina e a a responsabilidade humana? De onde deriva a nossa responsabilidade? Se Deus decretou todas as coisas por sua soberania e isto se estende a todas as suas criaturas incluindo o homem, será que somos de fato livres? E quando falamos de Soberania e Decreto Divino; isto também inclui as nossas decisões morais como o pecado? Estas perguntas serão na medida do possível, respondidas durante a exposição deste capitulo em questão.
I – Em Busca de Autonomia: O conceito de autonomia é a ideia de governar se pelos próprios meios, competência para gerir sua própria vida, fazendo uso de seus próprios meios, vontades ou princípios1. Resumindo, é a ideia de independência. E o que o pecador mais deseja é soltar se das amarras do senhorio de Deus sobre sua vida. E o pecado, leva o homem a não querer nem a presença, nem o controle de Deus sobre sua vida. Calvino observa que o pecado de Adão não só se estende a toda a espécie, mas ainda de todo se assenhoreia de cada alma2. O pecado nos faz rejeitar o governo de Cristo sobre a vida do pecador. Dito isto, a autonomia é uma ilusão criada pelo pecado e uma das consequências dele, para nos dar um tipo de status que nos leva a crer que podemos de fato ser iguais a Deus. É a falsa ilusão nascida no Éden de que somos e podemos ser independentes de Deus.
Explicando sobre a Providência Divina quanto as ações das criaturas; a Confissão de Fé nos ensina que:
“A onipotência, a sabedoria inescrutável e a bondade infinta de Deus, de tal maneira se manifestam na sua providência, que esta se estende até à primeira Queda e a todos os pecados dos anjos e dos homens, e isto não por uma mera permissão, mas por uma permissão tal que, para os seus próprios e santos desígnios, sábia e poderosamente os limita, regula e governa em múltipla dispensação; mas esta permissão é tal, que a pecaminosidade dessas transgressões procede tão somente da criatura e não de Deus, que, sendo santíssimo e justíssimo, NÃO PODE SER o autor do pecado e NEM PODE aprová-lo(destaque meu)”3.
Como vimos expondo ao longo deste Estudo, Deus Governa e Manifesta a Sua soberania por meio da Sua Providência. E como também temos deixado claro ao longo deste Estudo; ainda que Deus ... SUSTENTA, DIRIGE, DISPÕE e GOVERNA TODAS as criaturas, TODAS as ações delas e TODAS as coisas, desde a menor até a maior4; esta Providência se dá de modo permissivo quanto a Queda e ao pecado, sendo que a criatura é totalmente responsável por este pecado e ainda mais: esta permissão NÃO TORNA Deus autor do pecado, muito pelo contrário; Ele sequer o pode tolerar. O que nos leva agora a seguinte questão: podem criaturas livres ser tão controladas e continuarem responsáveis por seus atos?
II – Liberdade e Responsabilidade: Devemos considerar as seguintes perguntas antes de prosseguirmos: 1. Adão e Eva não tinham liberdade de escolher? 2. E eu? Tenho liberdade de escolher fazer o que eu quiser? Estes são pontos de tensão comuns a se considerar.
Como já expomos no capitulo 2 quanto ao Livre Arbítrio; a melhor definição para Livre Arbítrio quanto a liberdade do homem é o conceito de liberdade criada. E a liberdade criada, foi instituída por Deus e pertence aos agentes livres. Como defendido por Agostinho. Como defendido por Calvino. E como defendido por todas as Confissões Reformadas. O que não é a mesma coisa que liberdade autônoma, que engloba a ideia da chamada liberdade libertária, defendida por Pelágio e adotada pelos Arminianos por exemplo. Dito isto, como entender o conceito de responsabilidade lado a lado com a liberdade da criatura?
Via de regra, a ideia mais comum quanto a responsabilidade humana, está associada a liberdade que temos de agir. Contudo, lembremos que em geral, quando se pensa em livre arbítrio no imaginário popular, o conceito que predomina é o da liberdade autônoma. E como também já demonstramos bíblica e teologicamente, NENHUMA criatura de Deus teve esta liberdade que a tornasse livre de toda e qualquer influência possível, principalmente do próprio Deus(até mesmo Adão antes da Queda!). Mas o conceito de responsabilidade é a de que somos chamados diante de Deus para prestar contas das nossas ações, omissões, intenções, pensamentos e palavras. E a Bíblia define nossa responsabilidade em quatro pontos:
1. Somos responsáveis diante de Deus porque somos suas criaturas: Como o Soberano e dono de suas criaturas, Deus tem todo o direito de cobrar prestação de contas das suas criaturas. E como Soberano, ele tem a prerrogativa de chamar a qualquer momento qualquer uma de suas criaturas a prestar contas. Somos como vasos de barro nas mãos do oleiro. E Deus como oleiro, tem o direito de fazer o que desejar com a massa, veja Is 29.16; 45.9; 64.8; Jr 18.1-6; Rom 9.21.
2. Somos responsáveis porque Deus é o nosso ponto de referência moral: Como Soberano, Deus é o legislador da lei, portanto é também aquele que regula e delimita o que devemos ser e como fazer por meio da sua Palavra. Somos seres morais responsáveis, assim quando o Senhor afirma esta Verdade em muitas passagens, não tem meios de negar tal afirmativa; Jó 40.1-2; Tg 2.10-11.
3. Somos responsáveis pelo conhecimento que temos de Deus: Muito embora nem todos os homens tenham conhecimento do Evangelho, a Bíblia afirma expressamente que todo o homem tem um conhecimento revelado de Deus pelas obras da sua criação; Sl 19.1; Rom 1.18-23. E esta revelação chamada de revelação natural, torna os homens indesculpáveis diante de Deus O que nos leva a entender que, quanto mais conhecimento temos de Deus, mais responsáveis nos tornamos diante dele. Pois como dissemos anteriormente, a própria criação testemunha de Deus e das Suas obras.
4. Somos responsáveis porque o propósito de nossa vida é a gloria de Deus: A resposta do Catecismo nos ensina que a finalidade do homem é glorificar a Deus e alegrar se nele sempre5. E diz isto porque na verdade, somos responsáveis porque somos mordomos das bençãos que Deus nos dá para cumprirmos o fim para o qual fomos criados e chamados neste mundo; Rom 11.36; 1Co 10.31.
III – Liberdade Real: A conclusão lógica a que chegamos aqui é uma série de perguntas: 1. Como pode essa liberdade criada ser de fato liberdade? 2. Como pode Deus controlar todos os eventos da Historia, nos seus mínimos detalhes, e ainda sim nos dar liberdade?
Quanto a primeira, é necessário enfatizar que, nem tudo o que Deus faz nos é revelado. Ele também não precisa dar explicações a suas criaturas do que faz ou deixa de fazer, ou como faz ou não faz. E esta Verdade nem sempre é compreensível a nós. E somos por muitas vezes advertidos pelas Escrituras de que os caminhos do Altíssimo são inescrutáveis, mas melhores; Jó 5.9; Is 55.8-9; Rom 8.28; 11.33.
Quanto a segunda, enfatizamos que o homem faz o que deseja, segundo a inclinação do seu coração. Como explicamos no capitulo sobre o Livre Arbítrio. A Bíblia nos ensina claramente que homens maus praticam maldades porque amam mais as paixões de sua carne do que a vontade de Deus. Existem vários exemplos nas Escrituras. Um muito conhecido é o narrado em Daniel 4 e 5. Jamais poderemos afirmar que nosso pecado não é culpa nossa, pois a Bíblia revela e ensina a realidade de que desejamos mesmo praticar o pecado, e temos liberdade para recusá-lo, veja Gn 4.7.
Conclusão: O homem criado por Deus foi seduzido pelo diabo, e caiu em transgressão; o que o fez duvidar da palavra de Deus prometendo uma suposta liberdade independente de Seu Criador. Mas a Verdade é que Deus nos fez e nos deu uma liberdade criada por Ele mesmo, contudo esta liberdade não anula a nossa responsabilidade; pois ela está fundamentada em outros fatores bíblicos. Embora seres livres, nossa liberdade deve ser usada para obedecer e glorificar ao Senhor.
Juliana C. de Souza
1Dicionário Online de Português, acesso em 06/02/2024
2As Institutas, Liv. II, Cap II, Ponto 1, Mundo Cristão, 2022
3CFW, cap V. Da Providência, IV
4Ide, Parágrafo 1
5Catecismo Maior de Westminster, Pergunta 1
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