Série O que a Bíblia diz sobre a Doutrina da Soberania Divina

 CAPÍTULO 2 – O Livre Arbítrio Segundo as Escrituras

Texto Base: Romanos 7.12-25


Introdução: Quem nunca ouviu falar em Livre Arbítrio? A expressão é conhecida, e salta aos ouvidos de quem a ouve. Mas seu significado pode ser desconhecido pela maioria das pessoas, que a utilizam assim mesmo. O conceito dessa expressão é tão importante, que quando entendido corretamente; pode causar grande confusão. Assim, este Estudo tem como finalidade entendermos biblicamente o conceito de “livre arbítrio”, como os Reformadores o definiram, bem como as Confissões.


I – O Conceito de Livre Arbítrio: De modo geral e popular, livre arbítrio é a crença de que o homem pode fazer escolhas de forma “livre” ou independente(autônoma). Isso significa, que o homem pode fazer o que quiser; o que o torna livre de qualquer influência externa, inclusive do próprio Deus. Contudo, quando olhamos para o termo sob o conceito ou definição teológica/bíblica, é muito diferente do que a crença popular tenta impor.

Biblicamente, a definição de “livre” arbítrio, é a capacidade que o homem tem de fazer escolhas contrárias ou não segundo a inclinação da sua vontade, conforme a sua natureza. Portanto, conforme as Escrituras nos mostram em muitas passagens, o homem não é independente ou livre de influência conforme a inclinação da vontade. Nem a mesmo Adão foi criado plenamente livre no sentido de criatura de criatura independente do Seu Criador – Gn 2.16-17; Ec 7.29; Rm 2.14-15; Cl 3.10.

Para entendermos esse ponto, precisamos entender como era o homem ANTES da Queda, e como ele se tornou DEPOIS da Queda. Quem trouxe uma boa explicação desta condição do homem antes e depois do pecado, foi Agostinho de Hipona. Segundo Agostinho, temos o seguinte quadro:



Antes da Queda O Homem Era:

Depois da Queda O Homem É:

Capaz de não pecar; Capaz de pecar (possibilidade)

Incapaz de NÃO pecar


Assim, no quadro 1, conforme nos mostra a Confissão de Fé, lemos que:


O homem, em seu estado de inocência, tinha a liberdade e o poder de querer e fazer aquilo que é bom e agradável a Deus, mas mudavelmente, de sorte que pudesse cair dessa liberdade e poder”1.


Da mesma forma, ao olharmos para o quadro 2; lemos no mesmo capitulo da Confissão:


O homem, ao cair no estado de pecado, perdeu completamente todo o poder de vontade quanto a qualquer bem espiritual que acompanhe a salvação; de sorte que um homem NATURAL, INTEIRAMENTE avesso a esse bem e morto no pecado, é incapaz de, pelo seu próprio poder, converter se ou mesmo preparar se para isso2.


Assim, após a Queda, o livre arbítrio do homem é totalmente escravo da vontade para o pecado.


II – Os Efeitos do Pecado; A Depravação Total: A condição espiritual dos homens agora em consequência do pecado, é definida pela Bíblia como Depravação Total. Isso significa que:


Em primeiro lugar, que o pecado de Adão atingiu ou se estendeu a TODOS os homens em TODAS as épocas, incluindo a criação, criada perfeita, da mesma forma que Adão o foi antes da Queda, Rm 8.19-21. Isto porque Adão era o representante tanto da raça humana quanto da criação; assim quando Adão pecou, toda a criação caiu com ele. Após a Queda, todos os homens nascem na condição de pecadores, Gen 8.21; Sl 51.5.

Em segundo lugar, que o pecado nos tornou inimigos de Deus, Tg 4.4. A separação que o pecado causou na comunhão de Deus com o homem tornou o mesmo, não apenas desobediente, mas também um potencial rival da vontade Divina.

Em terceiro lugar, o pecado matou o homem, afastando o de Deus. Ou seja, o homem natural, sem Deus, é morto espiritual; porque ele está afundado totalmente no pecado, Gn 2.17; Ef 2.1. Quando falamos de morte espiritual, nos referimos a incapacidade que o homem tem de voltar se para Deus.

E em quarto lugar, o pecado afetou TODAS as faculdade do homem. Isto significa que não há NADA nos homens, moral, emocional ou espiritual que não estejam manchados pelo pecado. Mesmo as boas ações praticadas pelos homens, do ponto de vista humano, são maculadas pelo pecado, Gn 6.5; Rm 3.10-18.

Esta Verdade está relatada em toda a Bíblia, do Gênesis ao Apocalipse. É importante frisar que todos os homens estão sob a mesma condição de pecadores, e que por duas vezes, Paulo afirma citando o AT que “não há um justo, não há um sequer”. Isto é a definição que a Bíblia nos dá quanto a Depravação Total ou Radical dos homens. E segundo a Bíblia, a raiz do pecado é o coração. O pecado habita no coração do homem e, após a Queda, “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?”, Jr 17.9.

Por tudo isto que vimos até aqui, afirmamos que o homem perdeu o seu livre arbítrio, o que significa que ele não tem mais a capacidade de arbitrar entre o bem e o mal; pois esta liberdade de escolha, agora é condicionada a inclinação da vontade. O homem é sim conhecedor do bem e do mal; mas não capaz de julgar entre eles.


III – O Livre Arbítrio Pós Queda: Como consequência do pecado; o livre arbítrio segundo as Escrituras é definido como a capacidade do homem em fazer escolhas de acordo com a sua natureza. Assim, se Adão que foi criado santo e reto, pôde fazer uma escolha contrária à sua natureza boa e reta; agora depois do pecado, todos os homens agem somente de acordo com a inclinação da sua natureza, agora decaída. O que significa que todo o homem natural ou não regenerado, é INCAPAZ de por vontade própria buscar a Deus ou desejar as coisas de Deus. Assim temos dois estágios do homem pós Queda.


1. O homem pré conversão: Tendo definido a condição espiritual dos homens depois da entrada do pecado no mundo; olharemos para a liberdade/arbítrio do mesmo antes da Regeneração. A Bíblia nos mostra em várias passagens, que a vontade do homem está condicionada ou escrava do pecado que habita nele. Uma boa definição da condição do homem pós Queda e antes da Regeneração; é dada ainda no Éden por Deus: “Agora o homem tornou se como um de nós e CONHECE o bem e o mal...3. A Bíblia deixa claro que os homens sabem, tem plena ciência do bem e do mal; do certo e do errado. E apenas isto. Não significa que saber o que é o bem e o mal, é o mesmo que ter força para lutar contra o mal e escolher fazer o bem. Pois como já vimos, a consequência direta e imediata do pecado de Adão, foi a morte espiritual dele e de toda a Raça com ele. A vontade do homem a partir de então, está cativa, escrava do pecado que habita nele. E não há nada que o homem caído possa fazer por conta própria, que o liberte dessa condição, veja Ef 2.1. E por estar morto em delitos e pecados, pela sua natureza, o homem não tem mais o poder de arbitrar entre o bem e o mal no que diz respeito ao que é espiritual. E se Deus não usar de sua Graça para vivificar o homem de sua condição de morto espiritual, os homens permanecem fazendo somente a vontade da carne.


2. O homem pós conversão: Ao tirar do pecador o coração de pedra por um coração de carne, Deus não “restaura o livre arbítrio de Adão” no convertido. Porque ainda que o cristão em Cristo é uma nova criatura, ainda reside nele o pecado. A diferença, é que agora pela Justiça de Cristo em nós, o pecado não tem mais domínio para nos subjugar. Como bem nos mostra a Confissão de Fé:


Quando Deus converte um pecador e o transfere para o estado de graça, ele o liberta e sua natural escravidão ao pecado e, somente por sua graça, o habilita a querer e a fazer com toda a liberdade o que é espiritualmente bom; mas isso de tal modo que, por causa da corrupção ainda existente nele, o pecador não faz o bem perfeitamente, nem deseja somente o que é bom, mas também o que é mal”4.


Assim, ainda que esteja habilitado para desejar e querer fazer a vontade de Deus por livre vontade; o cristão enfrenta uma luta constante entre a vontade da carne e o Espirito, conforme Paulo nos mostra na sua carta aos cristãos da Galácia, bem como em Rom 7, nosso texto base. Está luta, conforme nos ensina as Escrituras, só terminará nos Novos Céus e Nova terra, quando nossa natureza será plenamente restaurada e estará cativa somente à vontade de Deus.


Conclusão: O homem foi criado conforme a imagem e semelhança de Seu Criador. E no Éden, gozava de liberdade para obedecer a Deus sem influência do pecado. Mas ao pecar, nossos primeiros pais perderam este privilégio, tornando eles e a raça humana; serva do pecado, e inimiga por natureza de Seu Criador. O arbítrio agora, manchado pelo pecado, é escravo do mesmo no que diz respeito a moral, e morto no que diz respeito ao espiritual. Apenas Deus pode mudar essa condição permanente dos pecadores, por Sua Graça. A nossa esperança, que se encontra fortalecida na promessa de Deus, é que um dia seremos totalmente transformados e nunca mais pecaremos. Soli Deo Glória.


Juliana C. de Souza



1CFW, Capitulo IX: Do Livre Arbítrio, Parágrafo 2

2Idem, Parágrafo 3

3Gênesis 3.22

4CFW, Capitulo IX: Do Livre Arbítrio, Parágrafo 4

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

SÉRIE: O que a Bíblia ensina sobre a Doutrina da Soberania e a Providência Divina - Capitulo 10

SÉRIE: O que a Bíblia diz sobre a Doutrina da Soberania e a Providência Divina - Capitulo 08

História da Igreja: A Tragédia em Guanabara